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Crítica: Frankenstein – Os pecados da criação

Os pecados humanos mergulhados na síntese inocente de Frankenstein e os frangalhos parentais que definem o rumo inconsistente — e infelizmente guiado por erros — da vida eterna, ou até onde a eternidade possa ir. Del Toro parece esvanecer seu filme — sobretudo na primeira metade — em planos mal pensados e que pouco comunicam, não fosse a verborragia de seu texto. Mas quando avança sua história e começa realmente a conciliar a cênica do design de produção — marca registrada do diretor — o filme vira outra coisa, e aquele cosmo de realidade fantasiosa toma vida, saltando aos olhos e arrancando momentos de emoção inesperados.

Interessante como Del Toro consegue conciliar seu comentário parental com toda a segunda parte do filme, na qual a narrativa se divide entre a história de Victor Frankenstein e, depois, a da própria criatura. É curioso perceber como esses dois momentos são distintos não apenas em estrutura, mas também em qualidade. A parte dedicada ao Frankenstein vivido por Jacob Elordi é simplesmente fantástica — surreal até. Todos os planos, enquadramentos e a estrutura narrativa convergem para um comentário preciso sobre pais quebrados e filhos que carregam, involuntariamente, as sequelas emocionais de seus criadores. Tudo se condensa nesse terço final: desde o processo em que ele aprende a falar até o momento em que começa a compreender seus próprios sentimentos. É nesse instante que o filme, enfim, encontra seu coração.

Del Toro sempre tratou seus monstros como espelhos da humanidade, e aqui não é diferente. Seu Frankenstein é uma síntese do desamparo, um corpo moldado pela dor dos outros e, ainda assim, capaz de amar. O design de produção, com seus tons azulados e a arquitetura que parece respirar o tempo todo, constrói uma atmosfera entre o sagrado e o profano — uma espécie de catedral de memórias quebradas. A fotografia, por sua vez, reforça esse estado de melancolia constante: a luz nunca é totalmente escura, mas tampouco plenamente viva. Tudo parece suspenso, como se o próprio mundo observasse em silêncio a criação que ousou ser maior do que o criador.

Sobretudo na primeira parte, centrada em Victor, é visível a falta de inspiração tanto nos planos quanto na construção dos personagens ao seu redor. Elizabeth, vivida por Mia Goth, parece distante da intensidade que a narrativa exige, entregando uma atuação correta, mas sem o traço de diferença que costuma marcar suas presenças em outros filmes. O que normalmente é o ponto forte de Del Toro — a comunicação entre seus elementos visuais e emocionais — aqui se dilui em momentos isolados, lampejos de inspiração que lembram sua força criativa. Há ecos evidentes do Drácula de Francis Ford Coppola, mas sem o mesmo vigor gótico ou o romantismo trágico que aquele filme alcançava. Tudo isso muda, porém, quando o foco passa para o Frankenstein, a criatura. É aí que o filme renasce. A mise-en-scène se torna viva, a dor encontra forma, e a experiência atinge algo próximo da catarse.

Jacob Elordi faz da criatura um corpo vulnerável, pesado, mas jamais grotesco. Seu Frankenstein não assusta — comove. Ele entende que o verdadeiro horror não está na aparência, mas na consciência do que ela representa: o fracasso de quem o criou. Há algo profundamente humano na forma como Del Toro filma esse corpo, como se cada gesto, cada olhar perdido, fosse uma tentativa de se reconhecer no mundo que o rejeita. Elordi entrega uma performance que equilibra ingenuidade e desespero, e é através dela que o filme encontra sua emoção mais pura. A partir desse ponto, Frankenstein deixa de ser uma narrativa sobre a criação da vida e se torna uma elegia sobre o que fazemos com aquilo que criamos — e com quem ousa nos amar, mesmo quando não merecemos.

No fim, Frankenstein é menos sobre a criação de um monstro e mais sobre a herança dos erros que moldam a humanidade. Del Toro revisita o mito de Mary Shelley com a maturidade de quem sempre filmou os excluídos — e agora olha para o próprio ato de criar como um gesto inevitavelmente falho, mas ainda assim amoroso. Entre a rigidez científica de Victor e a fragilidade emocional da criatura, há um espelho que reflete tanto o criador quanto o público: todos tentando dar sentido àquilo que foi feito de nós. Quando o filme alcança seu clímax, não é a morte ou a vida que importam, mas o instante em que ambos se confundem, e o amor surge, breve e trágico, como última forma de redenção.

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Lucas Cine

Redator chefe de entretenimento da Update Manauara. Crítico de cinema, apresentador do Lucas Cine Podcast e fã de terror.

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