Um exorcismo real, mas uma direção perdida no próprio roteiro.
Baseado na história real de Emma Schmidt — pseudônimo Anna Ecklund — e no exorcismo documentado em 1928 em uma abadia em Iowa, O Ritual tenta beber da fonte do horror religioso clássico, mas acaba entregando um chá morno. Com um roteiro que se apoia em dados históricos, mas falha ao transformar isso em tensão narrativa, o longa mais parece um exercício técnico de faculdade do que uma obra de cinema madura.

Dirigido por David Midell, que também assina o roteiro com Enrico Natale, o filme tenta diferenciar-se do padrão possessão-gritos-vômito ao investir em um tom mais contido e supostamente verossímil. Mas não se engane: ainda tem vômito (estranhamente parecido com folhas de fumo), línguas estranhas e levitação de canto de sala. A protagonista Emma (Abigail Cowen) encarna o clichê da possuída atormentada, enquanto as freiras assistem petrificadas e os padres mantêm a compostura como se estivessem em uma missa de domingo.
O problema é que, ao evitar os exageros do horror hollywoodiano, The Ritual tropeça em sua própria pretensão. A direção de Midell parece desesperada para mostrar tudo que aprendeu sobre linguagem cinematográfica: câmera na mão no estilo documental, cortes rápidos em cenas que exigiam contemplação e até ângulos holandeses que surgem sem propósito. Há uma cena em particular — um diálogo simples entre uma freira e um padre — que é filmada com nada menos que oito ângulos diferentes, como se fosse um episódio de reality show dramático. O resultado? Um ritmo quebrado e uma sensação de artificialidade que distancia o espectador do suposto realismo proposto.

Al Pacino, no papel do padre Theophilus Riesinger, parece estar em piloto automático. Seu sotaque germânico caricato remete mais ao seu Shylock de O Mercador de Veneza do que a um exorcista tomado por fé ou desespero. Pacino fala baixo, sem energia, e parece desconectado da trama — quase como se estivesse lendo suas falas no ponto eletrônico. Dan Stevens, no papel do padre Joseph Steiger, também está apagado, carregando no olhar o mesmo tédio do espectador. E considerando sua performance vibrante em papéis como Cuckoo ou I’m Your Man, é ainda mais evidente o desperdício de talento.
Talvez o maior pecado de The Ritual seja sua covardia em abraçar ambiguidade. A produção constrói lentamente a ideia de um caso verídico, até mesmo flertando com discussões sobre saúde mental e trauma de infância, mas volta atrás e abraça a literalidade do demônio sem pestanejar. A dúvida que poderia enriquecer a história — estaria Emma possuída ou sofrendo de um transtorno psíquico? — é descartada em nome de convenções do gênero. Perde-se, assim, a oportunidade de contar uma história potente e provocadora.
No fim, The Ritual é uma experiência entediante, tecnicamente ambiciosa, mas emocionalmente rasa. Um filme que parece mais preocupado em mostrar recursos de linguagem cinematográfica do que contar uma boa história. Nem mesmo a presença de Pacino é suficiente para salvar esse ritual que já começa fadado ao fracasso.







