O primeiro dia da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), iniciado oficialmente nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), foi marcado pela aprovação da agenda oficial do evento — um consenso entre os 194 países e a União Europeia que abre caminho para as negociações de financiamento climático, transição energética e adaptação global. O acordo inicial, considerado um dos momentos mais importantes do encontro, foi celebrado como sinal de harmonia entre as nações logo nas primeiras horas da conferência.
Além da aprovação da agenda, o primeiro dia foi pautado pela pressão internacional em torno da redução do uso de combustíveis fósseis, um dos temas centrais da COP30. O chefe da ONU para assuntos climáticos, Simon Stiell, reforçou que o foco agora deve estar em “como” fazer a transição energética de forma justa e acelerada.
Lula e Helder Barbalho abrem a COP30 destacando a Amazônia e cobrando ação global

Durante a cerimônia de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a COP30 será “a COP da verdade”, criticando o negacionismo climático e as guerras financiadas por nações ricas. Em discurso, Lula defendeu que a emergência climática é também uma crise de desigualdade, que atinge de forma mais severa as populações vulneráveis, e convocou o mundo a cumprir compromissos concretos com o planeta.
“A mudança do clima já não é uma ameaça do futuro, é uma tragédia do presente. […] A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela define quem é digno de viver e quem é digno de morrer”, declarou o presidente, ao lado do governador Helder Barbalho, anfitrião do evento e um dos responsáveis pela realização da conferência “no coração da Amazônia”.
Lula também destacou a criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, com aporte inicial de US$ 1 bilhão, voltado ao financiamento de projetos sustentáveis em países com biomas tropicais.
Presidente do Ibama alerta para o avanço da crise climática

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, ressaltou a urgência de uma ação conjunta entre governos, sociedade civil e setor privado, com atenção especial ao agronegócio. Segundo ele, o Brasil já sente os impactos diretos do aquecimento global.
“Nós temos hoje o dobro de gás carbônico na atmosfera em comparação a 20 anos atrás. Os episódios extremos tendem a se agravar. Precisamos adaptar a agricultura, as cidades e reduzir os gases de efeito estufa”, disse.
Agostinho lembrou ainda que, sem as florestas tropicais, não há solução possível para a crise climática.
Ministra da Cultura fala sobre sobrevivência da humanidade

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, afirmou que a COP30 representa um marco global “vital para a sobrevivência da humanidade”. A ministra destacou o esforço do governo federal na estruturação de Belém e disse que o evento já demonstra sua relevância com o volume de participantes e o impacto econômico e político gerado.
“Pelo esforço feito para montar toda a estrutura, podemos ter a dimensão da importância que este evento tem para a sobrevivência da humanidade”, declarou.
Margareth também celebrou o repasse de US$ 1 bilhão ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre como um sinal concreto de compromisso internacional.
Vozes indígenas e amazônicas ganham destaque

A liderança indígena Vanda Witoto criticou a ausência de autoridades políticas do Amazonas na abertura da COP30 e cobrou mais escuta das vozes originárias.
“Era missão dos prefeitos e governadores reivindicar financiamento para mitigar e adaptar as cidades às mudanças climáticas. Precisamos ser ouvidos”, disse.
Vanda também chamou atenção para a mobilização popular, destacando que muitos representantes indígenas viajaram em condições precárias para participar da conferência.
Já a empreendedora indígena Vanda Maciel Pororoca, do Amapá, apresentou um projeto de purificação de água que utiliza saberes tradicionais e tecnologia de ponta. A iniciativa transforma água bruta em água alcalina potável, unindo inovação e bioeconomia.
“Nosso projeto é uma solução que une os saberes da floresta à tecnologia, impulsionando a bioeconomia e proporcionando qualidade de vida às pessoas”, afirmou.
Protesto marca o início das mobilizações populares

Logo nas primeiras horas do evento, ativistas do movimento Dívida pelo Clima realizaram um protesto simbólico em frente à Zona Azul da COP30. Militantes de diversos países se deitaram no chão cobertos por panos, simulando corpos sem vida, em um ato contra a desigualdade global e a inércia dos países ricos diante das crises climáticas.
“Essas dívidas são uma forma de neocolonização. Nossa força vem do Sul Global para o Norte Global”, afirmou a ativista Lígia Machado.
O movimento reivindica o cancelamento das dívidas impostas ao Sul Global e pretende realizar novas manifestações nos próximos dias em Belém.
Um início de debates e contrastes
O primeiro dia da COP30 refletiu o tom que deve guiar toda a conferência: cooperação internacional, protagonismo amazônico e pressão por resultados concretos. Enquanto líderes políticos firmaram compromissos pela justiça climática, movimentos sociais e vozes indígenas lembraram que a urgência do clima também é uma urgência humana.







