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Crítica: Bugonia – As abelhas da carcaça

No mesmo ano em que Looney Tunes – O Filme: O Dia Que a Terra Explodiu transforma Gaguinho e Patolino em mártires de uma ameaça extraterrestre — tensionando a relação entre ambos e explorando, pela via da animação, todos os limites possíveis entre informação, histeria e catástrofe —, Yorgos Lanthimos surge com Bugonia. Após Tipos de Gentileza e seus exercícios de fabulação surreal que satirizam a psique humana diante da indiferença do mundo, o cineasta retorna a uma zona igualmente delirante, mas agora conduzida pela ficção científica. Aqui, o absurdo se torna método: Jesse Plemons e Aidan Delbis encarnam dois homens tragados por conspirações e teorias insanas, sintomas diretos do hiperestímulo digital contemporâneo, onde cada dúvida é potencializada até o apocalipse. Emma Stone, por sua vez, funciona como uma âncora das falsas verdades — um espelho da insegurança e das certezas fabricadas que orbitam o capitalismo tardio. Ela sintetiza, em corpo e gesto, a alegoria das chefias tóxicas, das estruturas corporativas em decomposição e das crenças que se confundem com delírio.

Se em seus filmes anteriores Lanthimos parecia condicionado a performar o absurdo — seja na rigidez coreográfica dos corpos ou na teatralidade de suas violências emocionais —, em Bugonia ele parece, enfim, confiar no próprio caos. Há uma sobriedade desconcertante na forma como o diretor estrutura esse mundo: um microcosmo que se sustenta por sua própria estranheza, sem precisar da muleta do “esquisito” como marca autoral. O absurdo é naturalizado, incrustado nas dinâmicas sociais e corporativas que o filme disseca com ironia e precisão cirúrgica.

A metáfora do título se impõe: bugonia, o antigo ritual mediterrâneo que acreditava no nascimento de abelhas a partir da carcaça de bois mortos, reverbera como síntese de um mundo que tenta regenerar-se a partir da própria decomposição moral. Lanthimos faz do mito uma alegoria contemporânea: as instituições — corporações, relações de poder, sistemas de crença — são cadáveres que ainda insistem em produzir vida, mesmo que apenas uma vida parasitária, ruidosa, incessante. A ficção científica, nesse sentido, não serve aqui como fuga, mas como lente de ampliação das ruínas do presente.

Com Bugonia, Yorgos Lanthimos parece revisitar sua própria filmografia como quem observa um espelho quebrado: há reflexos de O Lagosta, O Sacrifício do Cervo Sagrado e A Favorita, mas todos reorganizados em uma nova chave — menos formal, mais melancólica. É como se o diretor, depois de tanto dissecar as engrenagens do comportamento humano, aceitasse agora que o absurdo não precisa mais ser imposto; ele simplesmente é o que resta. O humor cínico dá lugar a um desconforto silencioso, um tipo de serenidade apocalíptica que traduz com precisão a confusão emocional e informacional de nosso tempo.

A cada quadro, Lanthimos reafirma seu interesse em observar o humano em colapso, mas não mais como objeto de estudo — e sim como parte inevitável do colapso. Jesse Plemons e Emma Stone, em performances tão controladas quanto vulneráveis, são figuras de um teatro que perdeu o roteiro: sobreviventes de um mundo que acredita poder regenerar-se a partir do próprio esgotamento. Nesse sentido, Bugonia é menos uma parábola sobre o fim e mais um retrato sobre o que sobra — as abelhas que insistem em nascer da carcaça, o zumbido persistente do que ainda tenta viver em meio à decomposição.

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Lucas Cine

Redator chefe de entretenimento da Update Manauara. Crítico de cinema, apresentador do Lucas Cine Podcast e fã de terror.

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