Se em 2006 Suddenly I See, de KT Tunstall, surgia como um hino energético sobre ambição, identidade e pertencimento em meio ao caos corporativo da moda, agora O Diabo veste Prada 2 abre com End of an Era, faixa do álbum Radical Optimism, de Dua Lipa. Não é apenas uma troca musical geracional; é uma mudança completa de perspectiva sobre trabalho, exaustão e sobrevivência emocional. Enquanto o primeiro filme embalava o sonho de ascensão profissional típico dos anos 2000, a continuação observa os escombros desse mesmo imaginário. O glamour ainda permanece intacto, mas agora acompanhado pelo peso de um mercado cada vez mais desumanizado, acelerado e paranoico.
O retorno de praticamente toda a equipe criativa original funciona como uma extensão natural dessa proposta. David Frankel retorna à direção, Aline Brosh McKenna novamente assina o roteiro e Florian Ballhaus recupera aquela textura visual granulada, elegante e muito específica do cinema comercial estadunidense dos anos 2000. Curiosamente, a ausência de trabalhos verdadeiramente marcantes dessa equipe nas últimas décadas fortalece ainda mais a identidade do longa. Existe uma sensação constante de deslocamento temporal, como se o filme estivesse preso entre duas eras: preservando uma estética quase intacta do original enquanto tenta compreender um mundo completamente transformado por novas dinâmicas sociais e profissionais.

É nesse conflito que o filme encontra sua melhor camada dramática. O roteiro volta a enxergar o corporativismo como uma máquina emocionalmente predatória, mas agora menos interessada em glamourizar a ascensão e mais focada nas marcas psicológicas deixadas por ela. A vulnerabilidade de Miranda Priestly, novamente interpretada pela monumental Meryl Streep, surge como um dos grandes acertos da continuação. Se antes Miranda funcionava quase como uma entidade inatingível do capitalismo de excelência, agora o filme revela as rachaduras por trás da figura mitológica construída ao redor dela.
Ao mesmo tempo, Andy Sachs continua carregando essa eterna sensação de ressurgimento profissional dentro da comunicação. Existe algo profundamente contemporâneo em como sua trajetória passa a dialogar menos com “o sonho de vencer” e mais com a necessidade constante de reinvenção para permanecer relevante dentro de um mercado que engole pessoas diariamente. Já Nigel Kipling, vivido por Stanley Tucci – vindo do excelente Conclave – permanece sendo a alma emocional da narrativa. Tucci possui uma excelência corpórea muito particular; cada olhar cansado, cada comentário ácido e cada silêncio do personagem carregam décadas de frustrações escondidas atrás da sofisticação daquele universo.

É inevitável lembrar de Industry enquanto o filme avança. Assim como a série, a continuação de O Diabo Veste Prada entende o ambiente corporativo como um espaço onde identidade pessoal e valor profissional começam lentamente a se confundir. A trajetória de Yasmin Kara-Hanani, personagem de Marisa Abela na série, ecoa bastante na maneira como Andy continua sendo moldada pelas demandas da indústria, vivendo permanentemente numa linha extremamente sensível entre ambição, sobrevivência e deterioração emocional.
O aspecto mais interessante do roteiro está na tentativa quase explícita de renegociar moralmente a leitura do primeiro filme. Em determinado momento, o personagem de B. J. Novak menciona o termo “mea culpa” ao discutir uma crise envolvendo a revista Runway e a repercussão pública do caso. A fala funciona praticamente como uma declaração de intenções do próprio longa. Há um esforço constante para revisitar tropos do original que envelheceram de maneira estranha: o namorado de Andy desestimulando suas conquistas profissionais, as amizades atravessadas por inveja e rivalidade feminina, além do próprio julgamento moral direcionado a Miranda.

A maior inteligência da continuação está em compreender que O Diabo Veste Prada sempre foi um filme de contradições. A maior fratura desvirtuosa do original acabou se tornando também um de seus maiores trunfos. O abuso de poder de Miranda, o olhar turvo sob o capitalismo estadunidense, as relações tóxicas e a própria transformação de Andy em produto daquele sistema criavam um desconforto muito mais complexo do que parte da recepção crítica da época parecia disposta a admitir. O novo filme entende isso e passa boa parte do tempo tentando desmistificar essas leituras simplistas.
Existe um comentário particularmente interessante quando o roteiro questiona se Miranda receberia o mesmo nível de condenação moral caso fosse um homem. É exatamente aí que a obra revela por que continua sendo um objeto tão iconográfico dentro das discussões feministas contemporâneas. O filme nunca oferece respostas fáceis. Miranda continua sendo abusiva, manipuladora e emocionalmente violenta em diversos momentos, mas também existe um reconhecimento de que o mercado que a transformou naquela figura monstruosa sempre foi comandado por uma lógica masculina de excelência e produtividade desumanizante.
O olhar de David Frankel continua protocolar até dizer chega, mas o curioso é perceber como o filme se beneficia disso. Sua encenação consegue passear com enorme eficiência entre o urbano sufocante das redações e o glamour quase performático dos tapetes vermelhos, eventos beneficentes e desfiles. O design de produção mantém um refinamento visual muito particular, dando vida a festas e ambientes que parecem existir permanentemente entre o espetáculo e a artificialidade absoluta.

E o elenco entende perfeitamente essa dinâmica. Emily Blunt, Stanley Tucci e Meryl Streep roubam completamente o filme sempre que dividem cena, criando uma química que impulsiona a narrativa mesmo quando ela permanece orbitando a ainda propositalmente deslocada Andy de Anne Hathaway. Hathaway continua funcionando por essa sensação permanente de inadequação; Andy jamais parece pertencer completamente àquele mundo, e isso a transforma na peça perfeita para ser moldada pela indústria.
Mas o que realmente surpreende é como a continuação encontra espaço para discutir o esvaziamento contemporâneo da interpretação artística. O filme observa um mundo cada vez mais incapaz de ler imagens, discursos e sensibilidades para além do consumo imediato. Há um comentário bastante amargo sobre a superficialidade com que obras visuais, sonoras e culturais passam a ser absorvidas atualmente. E, no meio disso tudo, ainda sobra espaço para discutir a ameaça da Inteligência Artificial dentro do mercado de trabalho criativo.
A ironia mais fascinante de O Diabo veste Prada 2 está em ser um filme progressista, crítico ao corporativismo e interessado em denunciar a violência estrutural das grandes empresas enquanto carrega o selo da 20th Century Studios, corpo inserido dentro do conglomerado da The Walt Disney Company – símbolo máximo da centralização midiática contemporânea após sucessivas aquisições industriais e as demissões em massa recentes. É quase como se o próprio filme estivesse preso dentro da engrenagem que tenta questionar.
Essa é a imagem definitiva da continuação: um longa sobre pessoas tentando preservar humanidade dentro de um sistema que transforma absolutamente tudo – talento, arte, sensibilidade e até sofrimento – em produto.







