Subscribe for Newsletter

Edit Template

Crítica: Isso Ainda Está de Pé?-Permanecer de Pé, Mesmo Sem Aplausos

Depois de dois filmes que o colocaram diretamente na corrida do Oscar –Nasce Uma Estrela e MaestroBradley Cooper escolhe um caminho menos grandioso em Isso Ainda Está de Pé. Se antes havia grandes palcos, luzes intensas e figuras maiores que a vida, agora o foco é outro: um homem comum tentando continuar, mesmo quando os aplausos não vêm.

O protagonista é um comediante de stand-up que usa o palco como espaço de organização pessoal. Diante da plateia, ele transforma crises conjugais, inseguranças e frustrações em piada. Fora dali, é alguém que mal consegue administrar o próprio casamento. O humor não surge como fuga, mas como ferramenta de sobrevivência. Ele não ri para esconder -ri para suportar.

Essa abordagem aproxima o filme de Tá Rindo do Quê?, de Judd Apatow, estrelado por Adam Sandler e Seth Rogen. Assim como naquela produção, o stand-up não aparece apenas como profissão -ele é confissão pública. O palco funciona como espaço onde o artista expõe suas falhas antes que elas o engulam.

Tá Rindo do Quê? (2009) Dir: Judd Apatow

Há algo muito potente nessa escolha. O stand-up, tantas vezes tratado como entretenimento leve ou até descartável, ganha aqui espessura dramática. Cooper parece interessado em lembrar que fazer rir exige coragem. Transformar dor em narrativa não é um gesto pequeno. É um risco.

Esse olhar também dialoga com a forma como Ramy Youssef constrói seus especiais, misturando experiências pessoais e comentários sociais com naturalidade. O humor deixa de ser apenas punchline e passa a ser construção de identidade. Em Isso Ainda Está de Pé, o protagonista existe através daquilo que conta no microfone.

Ramy Youssef

Ao mesmo tempo, o filme reconhece um cenário curioso: a comédia parece cada vez mais deslocada no panorama atual. O público busca narrativas complexas, experiências grandiosas, histórias que se anunciam como importantes. Rir, por si só, parece pouco. Cooper vai na direção contrária. Ele constrói um drama que entende o valor do riso simples -não como escapismo, mas como forma de resistência emocional.

Formalmente, o diretor abandona a elegância controlada de Maestro e aposta em algo mais cru. A câmera na mão aproxima o espectador dos conflitos e dá às cenas uma sensação quase documental. Estamos dentro da casa, das discussões e do silêncio desconfortável daquele casal. Não há glamour. Há desgaste.

Will Arnett entrega um personagem que equilibra ironia e fragilidade. Ele não é um gênio incompreendido nem um artista em ascensão meteórica. É alguém tentando não desmoronar. Já Laura Dern oferece uma atuação firme e sensível. A química entre os dois sustenta boa parte do drama conjugal e dá peso às cenas mais íntimas.

Há momentos, porém, em que o filme se arrisca demais. A montagem insiste na repetição da rotina do protagonista, especialmente no primeiro ato. A intenção parece clara: fazer o espectador sentir o cansaço e a monotonia daquela vida. Mas a insistência no ritmo arrastado pode afastar parte do público antes que o conflito ganhe força.

Também existem passagens em que o longa flerta com diálogos mais extensos e confrontos conjugais que lembram o cinema de Noah Baumbach. Nem sempre essa escolha encontra o mesmo impacto emocional. Em alguns momentos, as conversas parecem se prolongar além do necessário.

Ainda assim, quando o filme equilibra palco e vida doméstica, ele encontra sua melhor forma. As apresentações de stand-up não são apenas interlúdios cômicos; são comentários indiretos sobre o casamento, sobre frustração e sobre identidade. O personagem aprende, aos poucos, a rir de si mesmo -e isso dá ao longa uma dimensão mais humana.

Isso Ainda Está de Pé não tem o impacto imediato de Nasce Uma Estrela nem a ambição formal de Maestro. Em alguns trechos, parece indeciso entre ser um drama conjugal tradicional e um estudo sobre o papel do humor na vida adulta. Mas há honestidade no olhar.

E talvez seja justamente isso que sustenta o filme.

Em um momento em que a comédia muitas vezes é tratada como menor ou descartável, Cooper lembra que fazer rir pode ser um gesto de resistência. Não resolve crises, não salva casamentos, mas cria espaço para respirar.

No fim, o longa funciona melhor quando abandona qualquer pretensão de grande tese sobre arte e se concentra no essencial: pessoas falhas tentando continuar. Às vezes errando o tempo da piada. Às vezes tropeçando no próprio orgulho. Mas ainda assim subindo ao palco no dia seguinte.

Porque permanecer de pé, mesmo sem aplausos, já é um ato de coragem.

Escrito Por

Avatar photo

Lucas Cine

Redator chefe de entretenimento da Update Manauara. Crítico de cinema, apresentador do Lucas Cine Podcast e fã de terror.

Ethical Dimensions in the Digital Age

The Internet is becoming the town square for the global village of tomorrow.

Posts Populares

About Us

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, and pulvinar daHad denoting properly jointure you and occasion directly raillery. In said to of poor full.

You May Have Missed

  • All Posts
  • Amazonas
  • Brasil e Mundo
  • Ciência e Tecnologia
  • Cinema
  • Críticas
  • Destaques
  • Entretenimento
  • Esportes
  • Games
  • Lucas cine
  • Luis cunha
  • Parintins
  • Política
  • Saúde
  • Séries e TV
  • Sociedade

Tags

© 2024 Created with Royal Elementor Addons