Num cenário saturado de remakes que reciclam nostalgia sem entregar alma, Como Treinar o Seu Dragão (2025) surge como uma exceção rara — e bem-vinda. O live-action da DreamWorks poderia facilmente cair no mesmo buraco em que tantos outros projetos semelhantes escorregaram, tentando “realizar” o que já era emocionalmente completo na animação. Mas não. O que temos aqui é um filme que respeita o material original sem medo de usar a linguagem do cinema live-action a seu favor.
O filme, dirigido novamente por Dean DeBlois, é uma adaptação fiel ao enredo de 2010: o jovem Soluço, um viking deslocado que vive numa vila obcecada por caçar dragões, desafia tudo ao fazer amizade com Banguela, um Fúria da Noite até então temido e incompreendido. A relação entre os dois continua sendo o centro emocional da narrativa, e permanece tão potente quanto antes.

Mas o live-action entrega mais do que uma simples cópia realista. Ele traduz aquela mesma emoção com uma nova escala: o mundo de Berk agora parece palpável, com paisagens naturais que substituem os cenários digitais, texturas realistas nas peles dos dragões, e uma fotografia que valoriza cada momento com profundidade e contraste. A trilha sonora de John Powell, que retorna do original, ajuda a manter esse elo emocional intacto — e ainda mais potente no cinema.
Mason Thames, como Soluço, é uma escolha certeira. Ele traz um frescor juvenil ao personagem, com humor físico e vulnerabilidade sinceros. A química com Banguela (cuja estética mistura realismo com traços cartunescos muito bem dosados) sustenta o coração do filme. O dragão continua encantador, com expressões exageradas na medida certa — um acerto raro em adaptações que costumam errar ao buscar realismo absoluto e perder o carisma.
O elenco coadjuvante também entrega. Nick Frost como Bocão funciona, ainda que sem o brilho único de Craig Ferguson. Já Gerard Butler, como Stoico, volta com força total, talvez até exagerando em algumas cenas, mas sua entrega dá o tom grandioso que o personagem exige. Seu drama paterno com Soluço ainda emociona, e o figurino e maquiagem ajudam a compor uma presença física mais dramática do que na animação.
Se há falhas, elas vêm da própria fidelidade. A montagem sofre ao tentar encaixar o ritmo segmentado da animação em um formato mais orgânico de live-action. Algumas passagens pediam um respiro maior, outras exigiam transições menos abruptas. Ao manter o esqueleto narrativo idêntico, o filme acaba herdando certos engasgos estruturais que a animação disfarçava melhor.
Ainda assim, isso não ofusca o principal: Como Treinar o Seu Dragão funciona. Funciona porque sabe que adaptar não é apenas replicar — é traduzir. E aqui, tudo foi cuidadosamente traduzido para uma nova linguagem visual e emocional, sem apagar o que veio antes.
Ainda vivemos um tempo em que o cinema parece obcecado por repetir fórmulas que deram certo no passado — e quase sempre, o que se perde no processo é justamente a alma. Por isso, Como Treinar o Seu Dragão (2025) surpreende tanto. Não porque inventa algo novo, mas porque consegue fazer o que parecia improvável: recontar uma história já perfeita sem esvaziá-la.
É uma obra feita com esmero, com atenção ao detalhe e, acima de tudo, com um respeito genuíno pela relação que o público tem com esses personagens. Mesmo que alguns ajustes pudessem tornar a experiência mais fluida, a essência está lá — viva, emocionante, empolgante. E o mais importante: essa nova versão não rouba o lugar do original, mas caminha ao lado dele.
Se todo remake fosse feito com esse nível de cuidado, talvez o problema não fosse a repetição, e sim o modo como ela é tratada. Porque, ao final desta jornada, o que fica não é só a beleza visual ou a trilha épica. O que fica é a certeza de que essa história ainda tem o poder de tocar — agora, com novos elementos, novos rostos, mas o mesmo coração.







