Mesmo que Ian SBF tente emular o cinema de Rodrigo Aragão, falta o elemento do efeito prático — aquele toque artesanal que dá textura e peso às criaturas, e que também sustenta a tensão típica dos “filmes de cabana”. O que sobra é uma tentativa digital de replicar uma sensação que o corpo, o sangue e o chão molhado faziam por si só nos terrores de Aragão. Ainda assim, há uma intenção clara: o de criar um horror brasileiro de dentro, feito de suor, isolamento e culpa.

Em Entre Abelhas, SBF já havia mostrado um domínio notável sobre o espaço. A forma como ele trabalhava os planos abertos criava tensão e estranheza com naturalidade, fazendo o vazio falar por si. Aqui, em A Própria Carne, o confinamento e o espaço contido deveriam ser o apogeu desse tipo de abordagem — o ponto em que o desconforto visual e o drama interno se cruzam. Mas essa força se dilui. A mise-en-scène parece não encontrar o mesmo fôlego; o olhar do diretor, antes contemplativo e inquieto, se torna indeciso, preso à tentativa de traduzir o horror sem realmente encarná-lo.
Ainda assim, o filme constrói bem seu clima. As luzes quentes, o som abafado, o desconforto das paredes fechadas — tudo contribui para um suspense que cresce de forma contida. Mas é no elenco que A Própria Carne realmente encontra vida. Todos parecem entender o tom, e conseguem carregar a tensão com naturalidade, sem recorrer à caricatura ou à autoparódia. A direção se apoia muito neles, e é por isso que o mistério, mesmo falho, ainda alcança um ápice interessante.

Há, no fundo, um cinema que tenta encontrar seu próprio rosto dentro do gênero. Ian SBF parece buscar algo entre o grotesco e o psicológico, mas ainda tateia as possibilidades. É um filme de tentativa — e isso, no caso do horror, não é algo ruim. Porque mesmo sem o impacto físico que o título promete, há ali um desejo de perturbar, de fazer sentir, e isso já o coloca um passo à frente de muitos.
No fim, A Própria Carne funciona como um exercício de tensão: interessante, mas sem consequências. Um filme que mira o horror como espelho, mas hesita em atravessá-lo. E talvez seja justamente nessa hesitação que ele encontra o pouco de humanidade que lhe resta.







