Por mais que Parker Finn tente muito trazer uma abordagem nova para seu filme de maldição, acaba por cair em excessos que no primeiro longa já davam um sinal vermelho mas que aqui encontra uma narrativa completamente descompassada que vai tentando se encontrar em meio devaneios e regras impostas pela maldição, que ao meu ver mais faz mal para a o filme do que beneficia ele. Arrasadíssimo e com muitas coisas deixadas pelo caminho. A indústria e nossa geração está sempre em confronto, tentando gritar para o mundo de varias maneiras a podridão da mesma e como isso afeta o individuo de diversas maneiras. E em um ano que temos várias obras com essa abordagem faz parecer que o maior tom de originalidade é criticar a mesma como se isso fosse quase um gênero a parte, na logica estadunidense funciona mais como ‘fale bem ou fale mal, mas fale de mim’ fazendo com que tal discussão, devido as abordagens limpas que parecem mais corroborar com os ideais da indústria fiquem pra lá de vazias. Parker Finn, que trouxe Sorria em 2019, que apesar de seus usos genuínos das ferramentas do horror, conseguia alocar e comportar todos seus personagens nas penumbras do terror social e psicológico das inúmeras possibilidades de um mal inalcançável, imparável que brinca com nosso imaginário , partindo de um simples sorriso fazendo a estranhice do gênero entrar em um estado de horror paralelo a realidade da protagonista, que por muito e pela sua própria realidade imposta pelo roteiro para introduzir a tal abordagem clinica de transtornos mentais usado como cerne da perseguição unilateral da entidade. Em sua sequencia, Finn busca seu filme recorte para com a indústria, quase como se quisesse entrar na roda de conversa, de maneira completamente torta, diga-se de passagem. Não que essa abordagem não funcione, muito pelo contrario, é que aqui durante sua rodagem ele busca diversas maneiras de dialogar algo que tanto já fora estabelecido em seu anterior, como em excessos estilísticos que mais fazem dar uma sensação de repetição do que transformar e progredir sua trama junto a decupagem, saindo completamente pela culatra deixando o filme apenas redundante em vários momentos. Um filme um tanto quanto descompassado, que em sua essência até funciona muito como a sequencia do ‘mais’, só que quando esses vícios de linguagem cinematográfica quase que iniciantes contaminam todas suas composições e nada parece natural, acaba por ser apenas uma continuação a pedido de produtora, sem que o criador tivesse autoria sobre uma historia de maldição, que por si só precisa e muito de criatividade e sujeira para trabalhar as infinitas possibilidade do que a nossa mente pode criar com o horror e não deixar apenas no estado mais asséptico possível, reduzindo todas as possibilidades a meras viradas de roteiros. Sorria 2 procura dentro de seu debate cínico sobre a indústria, a materialidade dos medos ligados a traumas e figuras metalinguísticas , que por fim se torna apenas panfleto de um terror marcado por batidas e ferramentas do gênero, mas sem ser terror.
A dicotomia substancial dos corpos na indústria / A Substância (2024) – Review
Sem muitos exageros e hipérboles (que esse filme merece), gosto de como Coralie Fargeat pensa os corpos em seus filmes e as varias maneiras de linguagem corporal que ela consegue extrair do mesmo aqui elevado a máxima potencia. É como se os microcosmos que ela cria fossem tão criveis, que para as ferramentas narrativas realmente funcionarem ela dá vasão à fantasia e ao lúdico de maneira uniforme extrapolando a dialética para além da composição de imagens e saindo da logica estadunidense de pensar cinema como muitas vezes, um recorte morto de um universo parcialmente criado como muleta narrativa para manter o publico sempre engatilhado naquele universo, e não imerso. Aqui a imersão e o design de produção, que evocam muito do cinema de David Lynch desde o filtro pasteurizado até em como as pessoas são completamente inúteis para a existência daquela realidade e tudo está em eterno status quo de uma vazia, mas bela cidade tratando tudo e a todos como meras ferramentas alimentando um fantasma invisível, mas muito presente, da indústria. Demi Moore estar aqui no papel de Elizabeth Sparkle é sublime, e porque não poético. Uma musa de Hollywood que com o tempo entrou em desuso pela indústria, cada vez aparecendo menos em filmes. Senti durante todo o filme como se Moore usasse Sparkle para se divertir e falar através da arte e de onde ela pertence de como lhe fora tirada tudo aquilo e um quase aviso pra posteridade. Em certos momentos, eu sinto que Fargeat usa o próprio filme como antítese e divide ele como dispositivos penetráveis em um jogo de sensações que vai afunilando cada vez mais e a cada vez que se vai usando a eloquência de maneira pragmática, o filme fica cada vez mais perto da nossa realidade, e em dada cena se há afirmações de que tal pessoa está linda, está do jeito que deveria estar, ‘perfeita’, e assim como na vida real esses padrões não são alcançáveis e só de existir um padrão para isso já é de se regurgitar, as consequências disso são tão humanas que fica até difícil de acreditar que aquilo é apenas ficção. Comédia, Aflição e horror aqui andam de mãos dadas como pura frontalidade em um cinema desafiador para quem não está acostumado. Uma maneira linda de trazer esses debates como sendo estapafúrdios na visão e corpo de alguém que está alocada naquela realidade, fazendo com que todos os cenários sejam extremamente memoráveis e você sentisse o cheiro das coisas, as formas e cavidades. Filmadas das maneiras mais geniais possíveis, um POV errático nos jogando literalmente dentro das coisas. Os vários dispositivos plantados durante a trama da maneira mais fluida possível e que conversam com todos os momentos do filme nos levam a ir numa queda vertiginosa na psique de uma estrela em declínio e como isso vai moldando sua realidade para consigo mesma. A Substância é visceral, bruta, cômico e fantástico.
A imagética da mística profana / Vínculo Mortal (Longlegs,2024) – Review
Começo a falar de Vínculo Mortal pela reverberação de um viés de confirmação que se concentra em muito se pontua o medo do gênero ser tal gênero. Ao meu ver é como se fosse uma afirmação contraditória a partir do momento que o “pós terror” não se toma como existente na própria lógica cinematográfica dito que cai por terra ambas afirmações quando se na história do cinema temos tantos outros longas (baseados ou não) na abordagem mais estéreo e fria de um personagem. A cinema contemporâneo tem como principal obstáculo o próprio público que subestima a capacidade dialética do filme por entender suas bases de onde são baseadas e inspiradas, como se isso fosse um grande problema e como se no cinema isso não fosse uma realidade, ai sim, atemporal e que vai perdurar e transbordar para além do cinema. Arte é isso. A forma com que Oz Perkins pensa suas imagens e as várias maneiras dele trabalhar o mau encarnado através de espelhos da sociedade tratando seus personagens com descompasso social como se cada um daqueles pudesse ser uma face do mal em sua essência mas não por motivos fantásticos, mas sim pela selvageria humana, o descontrole mental frágil que assombra a sociedade que molda todo o ambiente em torno. Parte da trama que mistura vários elementos do gênero, de narrativas, faz com que todos os personagens lidem com desafios, com medos e com fantasmas do passado imutáveis, mas que mutam a essência humana de cada um a partir de literais dispositivos, transformando-os como se houvesse uma entidade que muitos renegam por uma asséptica visão moral e errática de um mundo cinza sem grandes novidades. O frio, a gelidão de sentimentos que carregam em seus corações por toda uma vida ordinária na qual não se há respiro, uma propagação de vida, do viver e do sentimento de manter-se são o suficiente para lutar com todos esses monstros que, quando tragos para a vida real e trazem a tona uma carga emocional que antes não estava ligada ao ato de viver, agora anda lado a lado com a ameaça que te persegue e atormenta dia e noite. Vínculo Mortal é um longa que abraça seu design de produção procurando imprimir o medo em cada lacuna e usando o mesmo como descarrego emocional de alívio quando finalmente temos o mal em carne e osso, e os desdobramentos de uma investigação ligada de maneira intrínseca ao passado, ao trauma e o horror de lembrar, pois a partir do momento que se lembra, se sente, se vive. O horror aqui, como parte de um grande jogo de sensações, por mais que limitadas, mas não de maneira ruim, são sensações impostas pelos protagonistas daquela investigação que vão sucumbindo ao jogo doentio do mal que vai escalonando e deixando o cerco fechado, mesmo que aparentemente pela frieza que o ambientação trabalha, pareça ser apenas algo cíclico que nunca vai acabar. Um filme de investigação de horror sobre um serial killer metódico que vai muito além do apenas sobrenatural, investigação e da morte para uso de gore. Aqui se trabalha a misticidade profana imprimido com maestria a partir de imagens e pequenos momentos que dão respiro em meio a frieza onde todos estão alocados. Um jogo maldoso com gostinho abstrato de morbidez.
O voyeurismo assistido/ Motel Destino (2024) -Review
Gosto de como Karim usa da estilização Neo-Noir para dar profundidade na sua já esbelta linguagem cinematográfica, trazendo aqui um mergulho atmosférico dentro do Motel Destino, local que o filme se passa e se torna um personagem que a cada segunda sua história é contada pelos sons e seus respectivos donos que vivem ali. A lógica do cenário do filme ser um Motel e o Background sonoro serem gemidos é de um esmero sem tamanho que torna a experiência pra lá de sensorial nos colocando como espectadores ávidos e viciados, Tal como o Voyeurismo Hitchcockano que ronda a misencene de todo o Motel seja em cenas de câmeras, seja em como a câmera de Karim passeia e encena seus personagem, sempre observados, assistidos. A profusão de elementos estilísticos que fazem a composição de uma realidade crível, cria uma identificação quase que instantânea com uma fotografia linda que fora totalmente filmado no Ceará. Como se aquele ambiente e lugar estivesse engolindo os protagonistas deixando-os hipnotizados e estagnados no tempo, com pequenos lapsos de sobriedade. Sobriedade essa que Aïnouz busca de várias maneiras tirar do seu filme, mas falha em alguns momentos e acaba por deixar apenas algo que poderia e ser mais sujo e gráfico, em algo mais contemplativo. E não que isso tenha problema, mas no tipo de narrativa e com os dispositivos narrativos que ele tem em mãos ele poderia bagunçar muito toda a estética do longa, assim como ele chega a entregar, até em momentos com tons de horror, mas isso nunca se é abraçado por total. A forma com que as relações vão se estreitando e sendo construídas quase que como uma correlação imediata ao progresso em que o Motel vai sendo “consertado” e olhado com outros olhares por aqueles personagens, o triângulo principal fica numa limiar ininterrupta, ficando cada vez mais tensa e moldando uma tragédia que pode implodir a qualquer instante com nervos a flor da pele . Os corpos aqui são usados mais como ferramentas e descarrego de tesao do quê propriamente de sexualidade e amor. É tesao carnal, desejo, suor e lágrimas. São sentimentos e pessoas interligadas ao tesão que geram tensão por toda a duração, moldando seu personagem principal, o destino.
Gentilezas em um mundo sínico / Tipos de Gentileza (2024) – Review
Por mais que Lanthimos entregue uma obra mais sóbria e que converse melhor com o seu tipo de narrativa, a forma com que essas histórias são integradas a partir das imagens que ele propõe serem desconcertantes e inquietantes, ele nunca chega em seu ápice, que curiosamente seus personagens conseguem chegar, mas o filme parece não acompanhar os próprios eventos. A lógica que o diretor traz aqui é de um mundo guiado por pessoas que precisam e necessitam de serem guiadas e lideradas por entidades, deixando diminuta a tal “liberdade” e humanidade de seus personagens, fazendo com que seja um argumento inicial paupável para que esse universo seja criado com a direção e visão de mundo turva do Yorgos, que gosta tanto de trazer em seus longas. A escolha de serem 3 curtas abordando a mesma temática com dispositivos diferentes dentre eles em um mundo que parece se colidir pelo ponto mais óbvio, acaba ficando muito raso a partir do momento que enxertos e inserções de “coisas acontecendo porque devem acontecer” transbordam pelos lados em um roteiro que deixa tudo tão morno e truncado de assistir, que vezes funciona por deixar os aparentes momentos verdadeiramente interessante e que engajam serem maior do que sua construção. É como se o desenvolvimento das histórias só fosse acontecendo eloquentemente e de maneira cadenciada com o único propósito de uma tentativa de que quando chegue o punchline seja completamente impactante, o que se torna totalmente o contrário quando não necessariamente somos jogados em nada parecido durante, e quando vem é algo indiferente que só concretiza uma história, sem o tal punch que eu que ele gosta de causar. A partir da segunda história isso fica aparente e você já fica com o mindset preparado para aquilo, para aquele tipo de narrativa. Mas ele até que consegue, no último curta trazer algo bem mais interessante e encorpado que ai sim dialoga muito bem com toda a proposta e a catártica relação humana para com o poder que o leva a todos os âmbitos possíveis do conhecimento humano, seja fantástico, humano, sobrenatural. Os erros humanos assim que encarados como dádiva a partir dos dispositivos (humanos ou não) que vão dando a lógica daquele micro universo, que até pode se ter um debate maior pois aquilo ali se tem uma verossimilhança para com a realidade muito relacionável, mas falta tato com a construção das estranhezas e dubiedade que uma pessoa tem. São personagens unilaterais que o filme arranha mais camadas, mas sem sucesso. Por fim, Tipos de Gentileza consegue abordar e ser interessante em dados momentos específicos, mas fica no caminho quando tenta tornar aquelas situações mais do que são, transbordando falácias, personagens que poderiam ser mais erráticos com causas e consequências pelo poder, mas aqui, fica tudo estéreo parecendo que o diretor estava tanto gritando algo, que ao final da obra já não faz sentido mais.
O Contato (2024) – Review
O cinema documentário tem o poder singular de transportar o espectador para realidades distantes, e “O Contato”, dirigido por Vicente Ferraz, é um exemplo notável desse potencial. O filme, que será lançado simultaneamente em várias capitais brasileiras, se destaca por oferecer uma visão íntima e sensível das vidas de três famílias indígenas na região de São Gabriel da Cachoeira, uma área notoriamente rica em diversidade étnica. Vicente Ferraz se propõe a algo ambicioso: mostrar o que há de universal na experiência dessas famílias indígenas, sem deixar de lado a complexidade e a especificidade de suas culturas. É um feito louvável, especialmente em um país como o Brasil, onde a invisibilidade dos povos originários ainda é uma realidade alarmante. O diretor utiliza histórias singelas, mas profundamente humanas, para conectar o espectador àquelas realidades. Seja através da jornada de uma professora em busca de cura para sua filha ou da história tocante de uma criança que vai conhecer sua bisavó, “O Contato” se firma como uma obra que transcende as fronteiras da mera curiosidade antropológica. A força do filme reside na capacidade de Ferraz de mesclar o particular e o universal, oferecendo uma narrativa que não apenas documenta, mas que também emociona. A opção de conduzir a narrativa pelo ponto de vista dos próprios indígenas é um acerto crucial, pois confere autenticidade e respeito às histórias contadas. Não se trata de um olhar externo que exotiza ou romantiza as culturas indígenas, mas de um olhar que se compromete com a verdade dessas vivências. Além disso, “O Contato” não se esquiva de temas dolorosos e urgentes, como a perda da língua, da tradição, e a ameaça constante de extermínio físico e cultural. O impacto do contato com a sociedade não-indígena é explorado com sensibilidade e profundidade, revelando as consequências trágicas desse choque de mundos. A força narrativa do filme é amplificada pela presença do Rio Negro, que não apenas conecta as histórias, mas também simboliza a fluidez e a resistência dessas culturas frente às adversidades. No entanto, “O Contato” não se limita a um retrato de dor e perda. Há, em suas tramas, uma resiliência palpável, uma resistência que se manifesta na preservação dos laços familiares, na transmissão de conhecimento e na luta pela sobrevivência cultural. É um filme que, ao mesmo tempo em que nos confronta com realidades difíceis, também nos oferece uma janela para a beleza e a complexidade das culturas indígenas brasileiras. Por fim, o sucesso do filme em festivais como o “É Tudo Verdade” e o Festival Internacional do Novo Cine Latino-Americano, em Cuba, apenas reforça sua relevância e qualidade. “O Contato” é, sem dúvida, uma obra essencial para quem busca entender mais profundamente o Brasil, suas origens e os desafios enfrentados pelos povos que primeiro habitaram esta terra. É um documentário que não só informa, mas transforma, desafiando o espectador a repensar suas percepções e a valorizar a diversidade cultural do país.
Alien Romulus (2024) – Review
Fede Alvarez depois do remake de A morte do Demônio (Evil Dead,2013), Homem nas Trevas (Don’t Breathe,2016), criação e direção da minissérie Calls da Apple TV+, cito essas produções por serem bases criativas de Alien Romulos que consegue ter identidade e trazer a cadência marcada na direção de Ridley Scott. Logo de cara somos jogados no meio da trama e apresentados aos dispositivos narrativos que irão prosseguir e desenrolar todos os pontos chaves do roteiro em um momento crítico de reação a uma ação de um universo e organização já estabelecidas que em poucos minutos se é apresentada, causando urgência e ligação com a problematica que os personagens estão inseridos. Gosto de como Alien Romulos faz uma releitura do universo já concebido e trabalhado pelos 7 filmes anteriores, entrando em profusão perfeita entre ação e horror com momentos cadenciados que fazem você segurar o ar junto com o personagem. Para além da cadência, caracteristicamente ligado a sua identidade autoral, o trabalho de ambientação é absurdo desde a homenagem linda à consistência imagética que os espaços trazem consigo. Aqui a urgência não é apenas o corre corre habitual que um filme atmosférico de terror oferece e traz consigo na sua base, mas sim uma gradativa sensação de desconforto e desamparo de que nada ali pode ou deve dar certo, um mal agouro constante que beira o sadismo pois por mais que os personagens estejam sofrendo e nos sabemos que tudo pode ficar ainda pior, queremos mais criaturas, mas bizarrices e todas aquelas gosmas e excrementos que cercam todo o design de produção. Design de produção esse que se beneficia muito de onde nossos personagens estão alocados e em como esses espaços irão manipular nossas emoções intrinsicamente alinhadas ao roteiro e nas vidas de cada um ali que anseia pela liberdade, pelo desprendimento industrial que acaba por se tornando trágico em um banho de sangue e gorro que acompanhamos vidrados. Alien Romulus trás consigo a lógica de horror espacial, ficção científica e um drama que apesar de se bastar nas entrelinhas está na vastidão do espaço com muitos perigos e uma falsa liberdade deliberada por humanos e sua vontade incontrolável de poder por tudo e todos. Filmaço.
Subterfúgios de uma estrada sem fim – Review Mais pesado é o Céu (2023)
Aqui temos um belo melodrama que passeia fluidamente em vários sentimentos pontuais para que sejamos fisgados pela trama como se tudo partisse da lógica da paisagem e do cenário árido e melancólico com tons de horror e cheio de identidade. Um road movie em uma estrada de incertezas e subterfúgios que parece nunca ter fim. Antônio, vivido por Matheus Nachtergaele em poucos minutos de filme tem uma conversa com um caminhoneiro que logo nos conta todo o background daquele personagem, de onde veio e do que está atrás, e isso é uma lógica que a narrativa e texto do filme abraçam pra contar a história dos personagens e construir as personas deles sem que o filme pare para nos contar isso. As alegorias que, portanto, são importantíssimas para a trama e ajudam a esse filme na sua composição e mise en scene fazem com que o ritmo e progressão andem juntos, mesmo que os próprios personagens cada vez mais estejam presos no lugar onde estão, com um único lampejo de felicidade e inocência que é o que os conecta. Me remeteu muito à “O que Ficou para Trás”, produzido pelo Netflix no ano de 2020 que muito se fala sobre o seu lugar no mundo, o que foi perdido, o que você irá perder e fantasmas do futuro que você está criando no presente que se tornará o seu passado. Que vezes mais pesado é o Céu flerta aqui usando a casa em que eles estão como um lugar quase sobrenatural com uma força ancestral que infelizmente acaba por ficar no caminho da narrativa. Narrativa essa que acaba por nos dar não só sofrimento e a busca pela mínimo em cenas de tortura sexual para com a mulher, que é onde para mim, perde força, e não pelo ato em si, mas sim em como o filme abraça o impacto dessa tragédia anunciada em cenas gráficas e expositivas como muleta pra dar substância e estímulo sendo que no seu próprio universo no rádio em alguns momentos se é falado sobre um assassino que vem fazendo vítimas. Gosto de como Ana Luiza Rios trabalha com a fisicalidade pra construir sua personagem falando as vezes apenas com o olhar e em como seu corpo fica com peito estufado, ou diminuta diante de uma realidade difícil de mudar na qual ela se encontra. Mais pesado é o céu é um longa que se mantém astuto e lindo durante toda sua duração, mas que tropeça por não nos fazer torcer para com nossos personagens indo para um caminho de tortura que mais faz você questionar a escolha criativa de como abordar o sofrimento em meio a tantos dispositivos que foram criados durante o filme. Mas com certeza Petrus Cairy é um diretor para ficar de olho em seus próximos trabalhos.
“Armadilha” que prende e surpreende – Review (Trap,2024)
“Há um fantasma na minha casa, e ele está usando minhas roupas.” Poucos diretores carregam consigo uma autoridade cinematográfica tão grande quanto Manoj Nelliattu Shyamalan e isso ele traduz em todas suas obras sem quaisquer amarras fazendo com que suas ideias virem experiências da vivência do diretor que por um acaso iremos presenciar em suas narrativas criativas e cheias de identidade, e armadilha é o exemplo perfeito disso. Se em A visita (The Visit,2015) o diretor usa o found footage como motivo e forma daquele universo existir em sua linguagem, aqui ele aborda um certo caos formalista que muito se tem profusão dentre todos eles e nos entregando uma comédia de erros com tons muito bem estabelecidos de terror e em como ele referência obras clássicas dos gêneros seja Halloween (Halloween,1978) de John Carpenter ou Pânico (Scream, 1996) de Wes Craven de diretores igualmente criativos. Um aceno lindo que fica implícito em vários momentos do longa, fazendo até uma alusão vezes explicita ao universo que ele mesmo criara com a trilogia iniciada com Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), e isso é algo que dentro da trama funciona demais e maneira com que ela vai se construindo, estudando a psique do personagem Josh Hartnett, Cooper. Quando eu falo em “comédia de erros” me vem em mente também o recente O Assassino (The killer,2023) de David Fincher na qual a tecnologia é sua maior e melhor aliada em ligação direta com sua sociopatia atiçada pelo seu trabalho e o ajudando nas relações e como tais portas e acessos irão lhe ser dados. Aqui, de maneira jocosa e hilária Shyamalan nós jogamos na pele de um Serial Killer criando primeiro a persona “comum” dele, mas não por motivos convencionais, mas sim como estudo de personagem em como Cooper flutua e passeia entre suas personas estando sempre em uma linha tênue, usando da sociopatia para conseguir acesso onde ele bem entender. E mesmo que todo aquele show, literalmente criado para o filme da Lady Raven (Saleka Shyamalan) e como isso vai dialogando seja como aceno para uma talvez experiência que ele tivera com a filha e isso fez ele criar uma situação limite dentro desse universo para que sua filha seja a grande estrela do show como mais um aceno parental e nostálgico do que propriamente não apenas um trabalho qualquer do diretor. Shyamalan gosta de trabalhar memorias, a sociedade em grandes situações em um escopo pequeno com traços e críticas sociais seja em Dama na Água com um crítico de cinema que não entende de cinema e e vê ele como apenas uma formula e perdeu o encanto com aquilo que tanto ama, seja em Armadilha em como ele arma todo um show para claramente criticar a segurança, infraestrutura e as facilidades com que contatos são estabelecidos nesses espaços. Espaços esses que trazem uma parcimônia inacreditavelmente aconchegante, mas não pela situação em si, mas pelo cinema de M.Night trazer esse senso, em como ele manipula nossas emoções a partir das formas como ele traduz sentimentos nas imagens e texto, e que, mesmo que o Serial Killer esteja dentro de um lugar com muitas possíveis vítimas, o máximo de tranquilidade que podemos ter é dele estar ao menos estar enclausurado, não só enclausurado mas sendo caçado em uma lógica completamente slasher de caça e caçador com uma pessoa que estuda nosso personagem principal enquanto nós como expectadores somos apresentados a ele e todas suas nuances e estamos seguindo ele de maneira como nos mesmo estivéssemos atrás dele mas não pelo mesmo motivo da psicóloga comportamental. Armadilha é um filme fluido, consciente que diverte e mantem tenso em toda duração sendo usado de todos as ferramentas estabelecidas durante o longa para sua própria narrativa nos entregando emoções ligadas diretamente com nossa ligação e lugar comum de ser apenas um show e partir dali o verdadeiro “espetáculo” acontece. Espetáculo que faz alusão ao fato de horas estarmos torcendo pelo nosso protagonista da maneira mais mórbida possível pois queremos ver o filme desenrolar e em como o diretor vai trabalhar a próxima grande escapada do assassino, e isso é algo genial que já foi trabalhado na 3 temporada de True Detective, a maneira mórbida com que esse tipo de abordagem é tratado hoje em dia e o circo midiático em cima de tudo isso é algo que o diretor trabalha com maestria.
Review O Último Pub (The Old Oak,2023)
Meu primeiro contato com o cinema de Ken Loach e eu gostei como ele constrói seus personagens cinzas que são trabalhados ao redor de cada vivência e o viés político e social que profusamente está intrínseco à todas as causas e consequências que levam todos ao seus status mais precioso: a humanidade. Para além de um cinema denúncia que muito funciona, mas vezes parece não saber como isso relacionar isso a narrativa. O longa se passa em uma pequena cidade mineira que enfrenta o declínio econômico após o fechamento das minas de carvão, uma história frequentemente narrada nas obras de Loach. O filme explora o impacto dessa perda em uma comunidade já abalada e como a chegada de refugiados sírios exacerba as tensões. No centro da narrativa está TJ Ballantyne (interpretado por Dave Turner), o dono do pub local “The Old Oak”, que tenta, com grande dificuldade, manter seu negócio e o espírito comunitário vivo. Loach utiliza o pub como uma metáfora para o estado de desintegração da sociedade britânica, onde as antigas tradições e a solidariedade comunitária estão em risco. A chegada de Yara (Ebla Mari), uma jovem síria, e sua família, provoca um choque cultural e social. No entanto, é através de sua interação com TJ e a comunidade que o filme expõe a possibilidade de empatia e entendimento entre pessoas de diferentes origens. Uma obra que fala sobre a importância da solidariedade em tempos de crise, a xenofobia e os desafios enfrentados pelos refugiados. Loach não se afasta de temas difíceis, como o racismo e a perda de identidade cultural, mas também oferece uma visão de esperança através da união e compreensão mútua. O filme é um chamado à ação e à reflexão sobre como tratamos o “outro” em nossas sociedades. “The Old Oak” é um filme poderoso e comovente, que examina a fragilidade e a força das comunidades diante das adversidades. Não é apenas um testemunho dos tempos modernos, mas também um apelo emocional para a empatia e a ação coletiva. Para os fãs de Loach e para todos aqueles interessados em histórias que refletem a realidade social, este é um filme imperdível. Estreia 08/08 (quinta-feria) com distribuição da Synapse.


