Petra Costa retorna em um filme bem mais assertivo no que quer contar e em como trabalha a espacialidade da sua voz dentro daquela narrativa robusta e, por muitas vezes, surreal da política nos últimos anos. A escolha do personagem central ser Silas Malafaia e tudo o que ele representa no jogo político de cartas marcadas e fins premonitórios criados por falsos profetas sustenta por si só um interesse máximo nas imagens que a montagem consegue extrair dos registros de Petra. Pontuais, comunicativos, sem jamais buscar neutralidade — mas também sem descambar para o panfleto fácil.
Gosto, especialmente, de como a narração de Petra aqui toma um tom mais onírico, interligado pelas representações religiosas, ressignificando todas as peças desse quebra-cabeça que virou o Brasil. A sensação é quase de um pesadelo vívido, em que as imagens não apenas informam, mas ecoam, voltam, se repetem como orações invertidas que alimentam o delírio coletivo.
É curioso perceber o quanto, por mais que o dedo do Brad Pitt como produtor executivo não tenha impacto algum no fazer cinema da Petra (pelo menos não em um primeiro contato), eu confesso ficar ressabiado com essa colaboração. Talvez pela desconfiança do quanto Hollywood precisa sempre digerir nossos colapsos políticos como exótica bizarrice, mas também pelo receio de ver o horror brasileiro embalado para consumo global — ao mesmo tempo que é impossível negar o alcance que isso proporciona.

Esse tom narrativo investigativo é também um mergulho em quem é Petra Costa. Mesmo sendo da família que detém uma das empreiteiras responsáveis pela própria construção de Brasília, ela sempre se coloca como comunicadora e pesquisadora, ciente do seu lugar de privilégio, mas igualmente entregue a um cinema que não teme expor suas contradições. É nessa chave que Apocalipse nos Trópicos funciona: um documentário que não se furta do cinismo ao colocar lado a lado Malafaia, Bolsonaro, a bancada evangélica e as imagens do atentado ao Congresso, mas também abraça o caráter farsesco do momento histórico, como uma tragicomédia de erros encenada em câmera aberta.
Os personagens políticos se apresentam como figuras carregadas de um peso simbólico, quase mitológico, que transcendem o espaço documental para se tornarem representações das contradições históricas do Brasil. Petra não apenas registra seus rostos e discursos: ela os coloca em uma encenação cuidadosamente construída, onde o político se torna um ator em cena, representando não só seu papel, mas uma narrativa maior sobre o destino do país.
Essa encenação expõe a teatralidade intrínseca da política brasileira — marcada por discursos que prometem transformação e pelo mesmo gesto carregam as sementes do fracasso. A falsa profecia dialética emerge justamente aqui: o documentário sugere que as promessas revolucionárias são, em última instância, parte de uma repetição histórica que, apesar das rupturas, parece condenada a se refazer, num ciclo quase inescapável.

Petra filma de perto, capturando as nuances, as hesitações, os silêncios dos políticos, revelando que por trás das encenações públicas existem fragilidades e contradições pessoais. Essa ambivalência no olhar da diretora oscila entre crítica e empatia, julgamento e dúvida. A câmera, ao se aproximar tanto, convida o espectador a entrar nesse espaço liminar — onde o político não é apenas uma figura distante, mas um sujeito com dilemas e vulnerabilidades, ainda que carregado pelo peso de uma profecia que parece se cumprir.
Existe um peso visual, mas existe também a ironia na montagem, que remete ao cinema de Kleber Mendonça Filho — e não apenas pela ideologia política ou pela narração em primeira pessoa. Existe esse impulso lírico, que dialoga com o país em colapso, não para edulcorar a realidade, mas para filtrá-la sob uma perspectiva mais pessoal, mais sensorial. Um pouco Retratos Fantasmas no tom, um pouco A Democracia em Vertigem no método, mas agora com uma maturidade clara no domínio do ritmo e da construção imagética.
Assim, Apocalipse nos Trópicos não entrega respostas fáceis nem se limita à denúncia: é um convite a refletir sobre o que significa viver e resistir num país atravessado por ciclos de esperança e decepção. Um documentário que abraça a complexidade de seu tempo, mantendo a dúvida e o inconcluso como parte essencial do olhar.
E talvez seja justamente aí que mora a força do filme: os políticos não precisam ser dirigidos, não precisam ser esculpidos em discurso. Eles já são personagens em uma encenação perpétua. Petra não precisa se preocupar com a disposição desses rostos nem com o jogo de cena; basta deixar a câmera ligada e registrar a performance. A tragédia brasileira já vem pronta para o palco — o cinema de Petra só revela a brutalidade do espetáculo.







