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Critica: Kiss All the Time, Disco Occasionally – Harry Styles

Em novo álbum, Harry Styles descobre que crescer também significa desacelerar
Novo disco transforma vulnerabilidade e introspecção no eixo central de uma sonoridade que se aproxima do indie pop

O novo álbum de Harry Styles, Kiss All the Time, Disco Occasionally, chega cercado por expectativas que, curiosamente, dizem muito mais sobre o momento do próprio artista do que sobre uma tentativa de reinventar a música pop. Depois de consolidar uma identidade estética muito característica de si próprio em Fine Line e refinar essa mesma linguagem em Harry’s House, Styles parece agora menos interessado em estabelecer uma fórmula e mais disposto a testar pequenas rupturas que não são necessariamente sonoras, mas emocionais.

De primeira, o disco pode soar discreto. Não há a grandiosidade pop imediata de “As It Was”, nem a catarse romântica de um coração partido que marcou o Fine Line. Em vez disso, o álbum aposta em um terreno mais atmosférico, mais contemplativo, que flerta com o indie pop contemporâneo sem se afastar do DNA pop que sempre sustentou a carreira de Harry.

Essa mudança de sonoridade, embora sutil, aparece em várias camadas da produção do disco. Algumas faixas trazem linhas de guitarra e texturas psicodélicas que lembram o universo de Tame Impala e as produções de Kevin Parker. Em alguns momentos, especialmente na forma como sintetizadores e reverbs criam profundidade nas músicas, a sensação é quase a mesma de ouvir uma faixa que poderia ter saído das mãos de Parker. Essa aproximação com o indie psicodélico funciona como uma espécie de pista estética: Harry parece interessado em expandir sua paleta sonora sem romper com o pop.

Talvez por isso parte da crítica tenha reagido com certa frieza. O álbum recebeu avaliações negativas em veículos tradicionais de crítica musical, como a Pitchfork, que sugeriu que o disco sugere que Harry teme mudar de fórmula, com um dance-pop contido e pouco memorável. Que falta exposição pessoal.

No entanto, essa leitura talvez ignore justamente o movimento mais interessante do projeto: Kiss All the Time, Disco Occasionally não tenta reinventar a música ou quebrar barreiras com uma “mudança de fórmula”. E isso parece ser uma escolha calculada.

Se existe um gesto ousado aqui, ele não está em criar um novo gênero ou em apresentar uma estética revolucionária. O gesto está no deslocamento. Harry Styles, um dos nomes mais bem-sucedidos do pop da última década, decide se afastar ligeiramente da zona de conforto que construiu, com a mistura de pop retrô, soft rock e soul setentista, para experimentar um registro mais introspectivo e despreocupado, mais indie e sem hits imediatos.

Para um artista que construiu grande parte da carreira equilibrando carisma pop e controle narrativo sobre sua própria imagem, esse movimento pode parecer pequeno à primeira vista. Mas dentro da lógica da carreira de Harry, ele ganha outra dimensão: é um passo em direção à vulnerabilidade. Esse tempo de pausa foi muito importante para isso.

E essa vulnerabilidade passa pelo disco inteiro. Nas letras, há menos respostas e mais perguntas. O romance continua sendo um eixo central, como sempre foi na discografia de Harry, mas agora ele aparece cercado de reflexões sobre tempo, medo, escolhas e amadurecimento.

É como se Harry estivesse olhando para trás e para frente ao mesmo tempo: revisitando experiências afetivas enquanto tenta entender o que ainda pode vir, e ainda o que ele planeja para o futuro. E essa sensação de balanço existencial casa com o momento pessoal do artista.

Nos últimos anos, a turnê mundial Love On Tour marcou um período de enorme exposição e sucesso para Styles. Foram quase três anos de apresentações sem parar, com estádios lotados e uma presença constante nos holofotes. O fim dessa etapa abriu espaço para um tipo de reflexão menos performática e mais introspectiva.

Em entrevistas recentes, Harry tem falado com frequência sobre a ideia de finalmente “estar vivendo”. Durante muito tempo, segundo ele próprio, muitas decisões eram guiadas pelo medo de errar, de perder controle sobre a própria narrativa, de dar passos que parecessem arriscados demais para uma carreira já consolidada.

E esse medo, ao que tudo indica, agora começou a se dissipar.

Há também um aspecto emocional difícil de ignorar nesse processo. A morte de Liam Payne, ex-colega de banda de Harry no One Direction, e o encerramento de um ciclo profissional tão intenso quanto o da Love On Tour parecem ter provocado uma mudança de perspectiva. E não necessariamente no sentido de transformar o disco em um registro explícito de luto ou término, mas no modo como o artista se permite olhar para o próprio percurso. De se permitir a sentir.

Kiss All the Time, Disco Occasionally acaba se tornando, dessa forma, o álbum mais confessional da carreira de Harry Styles. E não porque revela grandes segredos, mas porque soa mais humano. Não tem personagens e há mais sentimentos em estado bruto.

No sentido musical, isso se traduz em arranjos mais contidos, com faixas que valorizam o espaço entre os instrumentos e uma atmosfera que privilegia o clima emocional das músicas. Em vez de buscar o impacto imediato, muitas delas parecem interessadas em permanecer, em crescer aos poucos conforme o ouvinte volta a elas. É preciso mais de uma escuta para fazer sentido.

Para alguns, isso pode sim soar como falta de ambição. Para outras pessoas, especialmente para quem acompanha a trajetória de Harry desde o início, o disco pode ser interpretado como um gesto de maturidade artística. Do jeito dele.

E o verdadeiro experimento aqui não está na sonoridade, mas na postura que ele apostou desta vez. Harry Styles, que durante anos exerceu com perfeição o papel de popstar global, agora assume o seu lado mais frágil e aparece mais disposto em não ter todas as respostas, mas sim em viver, sentir e estar presente para o que importa de verdade.

E, nesse universo altamente controlado e caótico do pop contemporâneo, para um artista que surgiu a partir da indústria e dos padrões de uma boyband, admitir essa fragilidade é, sim, um dos movimentos mais corajosos e diferentes que ele poderia fazer.

Escrito Por

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Luana Pedrosa

Luana Pedrosa é jornalista formada, com foco em jornalismo cultural. Escreve sobre música, arte e cultura pop e alternativa, com atenção especial à música brasileira e aos contextos e cenários que atravessam esses universos.

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