A demissão de Filipe Luís do comando do Flamengo, na madrugada de 3 de março, não é um caso isolado. É apenas mais um capítulo de uma lógica que há tempos define o futebol brasileiro: a incapacidade de sustentar um trabalho quando os resultados oscilam. Mesmo após uma goleada por 8 a 0, a sensação deixada por sua última coletiva já era de instabilidade. No Brasil, às vezes, nem vencer basta para garantir permanência. O treinador vive sob julgamento permanente.
O caso do Flamengo é simbólico porque expõe uma contradição central do nosso futebol: até clubes vencedores operam sob a lógica do desmonte. Não foi a primeira vez que a diretoria rubro-negra interrompeu um ciclo logo depois de conquistas importantes. Dorival Júnior, campeão da Copa do Brasil e da Libertadores em 2022, também foi demitido. A mensagem é clara: no futebol brasileiro, passado não garante futuro. Nem currículo, nem títulos, nem identificação com o clube.
Os números ajudam a revelar a dimensão do problema. Desde 2019, o Flamengo acumulou 25 comandos técnicos, entre efetivos, interinos e retornos. No mesmo período, entre clubes que passaram pela Série A, o Atlético-MG teve 19, e o Fluminense, 16. Não se trata de exceção. Trata-se de padrão. Ou, mais precisamente, da falta dele.
No Brasil, o treinador precisa vencer o tempo todo apenas para continuar no cargo. Não há espaço para amadurecimento, construção ou correção de rota. A lógica é simples e cruel: ganhar para sobreviver. Isso empurra técnicos ao pragmatismo mais imediato, ao “vencer de qualquer jeito”, porque o que está em jogo não é só o desempenho da equipe, mas a própria permanência no trabalho.
Esse modelo compromete diretamente a formação de uma liga mais forte. Sem tempo, não se consolida uma ideia de jogo, não se desenvolve identidade, não se fortalece um projeto esportivo. O futebol brasileiro exige consistência, mas sabota a continuidade necessária para alcançá-la. Cobra excelência, mas administra no impulso.
Por isso, o caso de Abel Ferreira no Palmeiras soa quase como uma anomalia positiva. Desde 2020, ele atravessou oscilações, críticas e momentos de pressão, como qualquer treinador. A diferença é que encontrou uma diretoria disposta a sustentar o trabalho no longo prazo. O resultado foi um ciclo vitorioso, sólido e coerente. Não porque Abel nunca tenha errado, mas porque não foi condenado a cada tropeço como se toda derrota exigisse uma execução pública.
O imediatismo do futebol brasileiro não nasce apenas da paixão do torcedor. Ele também é produzido por dirigentes que planejam pouco, decidem mal e trocam de treinador como quem tenta apagar incêndio com gasolina. Quando o time fracassa, quase nunca se discute de forma séria a montagem do elenco, a precariedade da gestão, os conflitos internos ou a ausência de planejamento. Cai o técnico, porque ele é a peça mais visível e a mais fácil de sacrificar.
No fundo, a demissão constante funciona como um teatro de ação. O dirigente precisa mostrar que fez alguma coisa, ainda que essa medida raramente ataque a raiz do problema. Trocar o treinador é mais simples do que admitir falhas estruturais. É mais fácil demitir um homem do que reformar uma cultura.
O futebol brasileiro é predatório porque devora seus próprios processos. E vive do imediatismo porque não suporta o tempo necessário para que um trabalho amadureça. Aqui, a crise não interrompe um projeto: muitas vezes, ela apenas escancara que projeto nunca existiu.







