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Crítica: Marty Supreme – Entre o Delírio do Sonho e a Insistência em Seguir

O rompimento do fio linear da vida ordinária e a interseção do sonho como motor objetivo para acordar dia após dia – ou talvez apenas a vontade de viver. Marty Mauser, em muitos aspectos, é um sujeito manipulador em sua essência mais crua, alguém que sempre tira proveito das situações a belo prazer, sem que nada pareça ter impacto suficiente para detê-lo de forma definitiva. Ele se aproxima e encarna o absurdo, mas nunca tira completamente os pés do chão, do terreno concreto. E como Marty nunca pode voar – metafórica e literalmente – por conta de seus próprios erros ou escolhas errôneas, tudo o que lhe resta é contornar as consequências, criando sempre mais um efeito colateral, mais uma dobra narrativa onde acredita poder se esconder.


Há algo de profundamente humano nessa insistência em não aprender. Não no sentido edificante, mas no mais instintivo: sobreviver, permanecer em movimento, não aceitar a estagnação como destino. Marty não busca redenção, tampouco transformação moral. Ele quer seguir. E seguir, aqui, não é avançar, mas escapar. A lógica que o rege não é a do progresso, e sim a da manutenção – da própria imagem, do próprio desejo, da própria ficção pessoal que constrói para si mesmo.


É inevitável acompanhar essa jornada turva de grandes sonhos e poucas conquistas, maximizadas pela imponência que se traduz na atuação cerebral de Timothée Chalamet. Um trabalho que se constrói no físico, no texto e, sobretudo, na impressão que ultrapassa as barreiras da encenação performática. Chalamet não interpreta Marty como alguém que deseja ser amado; ele o encarna como alguém que quer ser visto, mesmo que isso signifique repulsa. Surge, então, um personagem intragável, que ecoa fortemente seu trabalho em Um Completo Desconhecido, criando amálgamas autorais suficientes para dar corpo a personas intensas, sempre posicionadas na linha tênue entre o correto e o incorreto.


Esse limiar moral nunca se resolve. Pelo contrário: ele se acumula. Marty é um ser humano em potência máxima, mas uma potência mal direcionada, quase desperdiçada. Não porque lhe falte talento, mas porque lhe falta propósito que não seja ele mesmo. Tudo gira em torno de sua permanência no centro do quadro, mesmo quando o mundo insiste em empurrá-lo para fora. O filme entende que o problema de Marty não é a queda, mas a recusa em reconhecer o impacto dela.
Talvez seja por isso que Marty Supreme jamais se compromete com uma lógica clássica de ascensão ou queda. Não há arco tradicional porque Marty não acredita em aprendizado. O erro não funciona como ponto de virada; ele é método, estratégia e linguagem. É justamente essa recusa em evoluir que torna o personagem tão incômodo quanto fascinante – um corpo em movimento constante que se nega a reconhecer qualquer forma de limite como definitiva.


O ponto que acabo de atropelar pela euforia indiscritível ao escutar o som eloquente de paixão e harmonia musical de Gal Costa – sons que parecem não existir mais com a mesma intensidade – atravessa diretamente minha vida como crítico de cinema. Uma vida precarizada pela falta de acesso da sociedade à arte e à cultura, frequentemente empurradas para o campo raso do entretenimento, como se nelas não houvesse pensamento, rigor ou complexidade. Como se não houvesse seriedade nessas “coisas”.
Essa lógica é a mesma que, por muito tempo, recusou reconhecer o tênis de mesa como esporte, até que os anos o reposicionassem socialmente. É também a lógica que insiste na falsa inutilidade etérea da comunicação, amaldiçoando o pensamento de quem escolhe esse caminho e ama comunicar. Como se, em algum nível, fazer o que se ama fosse uma espécie de contravenção social. Como se a paixão fosse sinônimo de irresponsabilidade.


Contravenção, aliás, é uma palavra que define Marty Mauser com precisão cirúrgica. Um contraventor não apenas da lei, mas da expectativa. Ele intervém na própria forma de existir, molda a vida que leva conforme suas conveniências, informa e contorna cenários sempre em benefício próprio. Não há satisfação possível nesse vocabulário, porque a satisfação implica fim – e Marty só entende o mundo em termos de continuidade.


Diante dele, o mundo torna-se pequenininho. Não por falta de obstáculos, mas porque todos parecem passíveis de serem quebrados, dobrados ou enganados ao longo do filme. Às vezes o sonho nem é tão grande; o que realmente importa é a vontade de viver a vida nos próprios termos, mesmo que esses termos sejam instáveis, frágeis ou moralmente questionáveis. Marty não quer tudo; ele quer o suficiente para continuar sendo ele.Nesse sentido, Marty Supreme jamais idealiza seu protagonista. O filme observa, acompanha, mas não absolve. Existe uma distância crítica constante entre o que Marty acredita ser e o que ele efetivamente é. É nesse espaço que o longa encontra sua força: ao permitir que o espectador se incomode, se irrite e, ainda assim, reconheça algo de familiar naquele impulso quase patológico de continuar.


Não bastasse a frenética jornada febril desse falso ícone americano, Josh Safdie demonstra pleno domínio ao dialogar com o cinema vanguardista independente dos Estados Unidos. Mais do que referenciar, ele incorpora uma figura central desse cinema artesanal de baixo custo, que, em sua época, comunicava descrença, sujeira e desencanto a partir de um recorte social específico. A presença de Abel Ferrara como um quase mafioso não é gratuita: ela carrega consigo um histórico de transgressão, de cinema feito à margem, de narrativas que jamais pediram permissão para existir.Ferrara funciona como uma espécie de espelho distorcido de Marty – alguém que já percorreu aquele caminho e sabe exatamente onde ele leva. Ainda assim, o aviso nunca se concretiza. Porque Marty não escuta. Ele apenas avança, embalado por uma trilha emocional que mistura delírio, desejo e um romantismo torto da derrota. Não há lição possível para quem não acredita em aprendizado.


Marty Supreme é, no fim das contas, um filme sobre insistir. Insistir mesmo quando não há promessa de vitória, mesmo quando o fracasso é o único horizonte visível. Talvez por isso dialogue tão diretamente com quem vive da arte, da crítica e da comunicação – campos constantemente deslegitimados, constantemente colocados à prova. Marty não é herói, tampouco vilão clássico. Ele é produto de um sistema que glorifica o sonho, mas abandona quem ousa sonhar fora do molde.
E é nessa contradição que o filme encontra sua potência mais incômoda: a de nos perguntar se viver, afinal, já não é em si um ato de contravenção.

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Lucas Cine

Redator chefe de entretenimento da Update Manauara. Crítico de cinema, apresentador do Lucas Cine Podcast e fã de terror.

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