Há algo de sintomaticamente contemporâneo no retorno de Anaconda em 2025: não se trata apenas de ressuscitar um título popular dos anos 90, mas de reencenar um imaginário que já nasce ciente de sua própria condição de produto. Diferente do filme de 1997, que apostava na fisicalidade do perigo e na selva como espaço de ameaça concreta, esta nova versão entende o monstro menos como animal e mais como ideia – uma presença moldada pelo CGI, pelo humor autoconsciente e pela lógica de um cinema que já não acredita plenamente no medo que produz. Anaconda (2025) não quer nos fazer temer a serpente; quer que reconheçamos o gesto de colocá-la novamente em cena.

Esse movimento dialoga diretamente com a filmografia do diretor, que parece compreender a nostalgia não como refúgio confortável, mas como território instável, atravessado por perdas, frustrações e uma melancolia silenciosa. Em seus filmes, olhar para trás é sempre um gesto ambíguo: há carinho, mas também consciência do desgaste; há afeto, mas nunca ingenuidade. Em Anaconda, essa abordagem ganha contornos quase trágicos, ainda que permanentemente filtrados por um cinismo preciso – um cinismo que não esvazia o filme, mas o sustenta.
É justamente essa ironia controlada que dá ritmo às piadas e organiza o humor do filme. Nada aqui parece jogado ao acaso: as piadas surgem nos momentos exatos, não para quebrar a narrativa, mas para impulsioná-la. O absurdo cresce em camadas, com uma eloquência própria, como se o filme soubesse que precisa exagerar para continuar avançando. Cada situação improvável não anula a anterior; ao contrário, soma-se a ela, criando uma espiral que vai do riso ao desconforto, do pastiche à estranheza.
Nesse sentido, Anaconda (2025) se aproxima bastante de Trovão Tropical. Não apenas pela autoconsciência ou pelo humor metacinematográfico, mas pela maneira como dramatiza seus personagens a partir de seu amor pelo cinema. Assim como no filme de Ben Stiller, aqui a encenação não é só piada – é necessidade. Fazer cinema, mesmo quando tudo soa ridículo, é a única forma que esses personagens encontram de permanecer juntos, de reorganizar laços corroídos pelo tempo, pelo fracasso e pela própria indústria que os moldou.

A narrativa vai, então, se transformando silenciosamente: o que começa como um jogo de referências e ironias passa a revelar uma camada mais íntima, quase afetiva. A amizade entre os personagens não se sustenta apesar da encenação, mas por causa dela. O cinema surge como espaço de resgate – não de um passado idealizado, mas de uma relação que só pode existir enquanto performance. É nesse ponto que o filme encontra sua dimensão mais interessante: o absurdo só funciona porque há afeto por trás dele.
Até mesmo o monstro, reduzido a signo digital e espetáculo calculado, parece carregar essa lógica. A anaconda já não é ameaça orgânica; é imagem, é memória, é simulacro. Sua presença reforça a ideia de que o perigo, hoje, não está mais na selva, mas na repetição incessante de fórmulas, na necessidade de reviver algo que talvez já tenha cumprido seu papel. Ainda assim, o filme não trata isso com desprezo — há um respeito melancólico pelo que foi e pelo que ainda tenta ser.
Anaconda (2025) entende, no fim das contas, que sua força não está em reinventar o terror, mas em dramatizar o próprio ato de retorno. Ao abraçar a nostalgia com lucidez e ironia, o filme encontra um equilíbrio raro: ri do passado sem anulá-lo, expõe seus limites sem desmerecer seu impacto. Entre o cinismo e o afeto, entre a piada e a melancolia, o que emerge é um filme menos interessado em assustar do que em encenar – e nessa encenação, preservar alguma forma de amizade, de cinema e de sentido.







