Óliver Laxe transita e passeia — mesmo que sem sair do lugar — pelos desertos arenosos que podem ser em qualquer lugar, em qualquer realidade, evocando como ponto central de metalinguagem a crença islâmica: a ponte que cada pessoa deve atravessar, sobre o inferno, para chegar ao paraíso no Dia da Ressurreição. Mas toda essa jornada, cheia de rupturas escabrosas na construção de um sentimento único para chamar de seu, não consegue extrair a emoção que busca através dos vários acontecimentos e tragédias ao longo da trajetória daqueles personagens. Laxe vai de Comboio do Medo, de Friedkin, a Mad Max: Estrada da Fúria, culminando numa catarse interminável — uma tentativa crassa que quase emula um filme de Michael Haneke.
Há um formalismo caricato e desesperançoso em Sirāt que parece carregar mais pretensão estética do que substância narrativa capaz de unir todos os seus elementos. Mesmo em sua tentativa de encenar a música como alicerce daquela realidade — e como fuga temporal dentro de um ciclo de violência que permanece fora de quadro —, o filme fica aquém. As festas e pulsações sonoras surgem como fragmentos de uma esquete, incapazes de sustentar o peso simbólico que lhes é atribuído. É tudo muito bonito, visualmente contemplativo, mas limitado em sua comunicação.

O comentário sociopolítico, por outro lado, é instigante: as interseções entre ficção, realidade e guerra revelam uma vivência sentida, ainda que sem pertencer plenamente a nenhum lugar. Sirāt também brinca com a disparidade dos planos de perseguição e o deslocamento dos personagens, presos em uma realidade própria, buscando qualquer forma — breve ou ilusória — de fuga. Essa sensação de trânsito constante, tanto geográfico quanto existencial, é o que sustenta parte do interesse do filme.
A ambição de Laxe em transformar o deserto em espaço de comunhão, conflito e transcendência não é nova, mas aqui ela parece ressoar de modo mais difuso. O deserto, que antes em seus filmes representava uma travessia espiritual, surge agora como uma zona de suspensão, onde o ruído das festas e o silêncio da paisagem coexistem sem necessariamente dialogar. O resultado é uma experiência fragmentada — tão hipnótica quanto frustrante.
Há mérito evidente na forma como o filme se entrega ao sensorial. A música eletrônica e a vibração das luzes assumem uma fisicalidade rara, traduzindo o êxtase e a confusão de corpos em movimento. No entanto, falta uma espessura dramática que sustente o impacto visual. A música existe, pulsa, mas não atravessa completamente os personagens; parece confinada à superfície, a uma ideia de libertação que nunca se concretiza.

Quando o filme tenta aproximar essa euforia da realidade política que o cerca — os ecos da guerra, da opressão, da resistência —, o gesto é nobre, mas o alcance é curto. O social aparece como sombra, não como pulsação interna da narrativa. As imagens têm força, mas o pensamento por trás delas raramente se manifesta de forma clara. A contemplação vira um refúgio, e não um enfrentamento.
Sirāt acaba sendo um filme de belas intenções e presença sensorial admirável, mas que se esgota no próprio encantamento. Ele flutua entre o delírio e o vazio, entre a beleza e a repetição, como se quisesse dizer algo sobre o mundo e sobre a fé — mas parasse antes de realmente tocar em qualquer uma dessas dimensões. Ainda assim, há algo de genuinamente humano no modo como Laxe observa seus personagens: perdidos, desajustados, tentando existir em meio a uma paisagem que os ultrapassa.

É justamente aí que reside o que o filme tem de mais interessante: na sua imperfeição, na tentativa de capturar uma experiência espiritual sem recorrer a dogmas. Sirāt é cinema como ritual — um gesto de busca. Mas, ao mesmo tempo, é cinema como frustração — o reconhecimento de que essa busca talvez não leve a lugar algum.







