De dezembro a maio, os ouriços de castanha, como são chamados os frutos das castanheiras da Amazônia, caem das árvores e atraem extrativistas que coletam, separam e organizam o que é o segundo produto de extração mais vendido do bioma do Norte do país (atrás apenas do açaí). Neste ano, porém, o ciclo não deve se repetir. A castanha não vai dar “nem para o leite”, como dizem os ribeirinhos, acostumados a usar o líquido do fruto para cozinhar peixes e caças. Diante da seca histórica na região em 2024, estima-se que a safra atual seja a pior já registrada.
O resultado deve superar negativamente o do período de 2016 a 2017, quando a produção recuou 70% em relação ao biênio anterior. Oito anos depois, o problema se repete e se agrava, o que evidencia o impacto das mudanças climáticas, alertam especialistas. Agora, os eventos extremos acontecem de forma cada vez mais intensa e frequente.
Na Terra do Meio, área que abrange três reservas extrativistas — Rio Iriri, Riozinho do Anfrísio e Rio Xingu — entre Altamira e São Félix do Xingu (PA), há 332 famílias que dependem da castanha para alimentação e geração de renda. Neste ano, já esperavam uma safra fraca. Mas o resultado foi pior do que o previsto.
— Foi uma safra sem nenhuma entrega, como eu nunca tinha visto. Não existe castanha na Terra do Meio nem para alimentação — lamenta Francisco de Assis Porto, presidente da Rede Terra do Meio, que reúne os extrativistas da região e no ano passado movimentou R$ 2 milhões no comércio de produtos da floresta, dos quais R$ 500 mil só com a castanha. — Me articulei com parceiros para termos mantimentos e comida e não sofrermos um impacto ainda maior. E até para a comunidade não ir embora.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/x/0/ZldXkdQTA0zgOqSReURQ/bra-23-03-seca-castanheiras-1-.png)
Segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), considerando a média de estiagem em todo o 2024 na Amazônia, 70% dos municípios da região (414 de 591) tiveram um ano de seca. Vários rios foram rebaixados aos menores níveis já vistos, como os principais de Altamira, o Xingu e o Iriri. A estiagem comprometeu a fisiologia das castanheiras e a reprodução das abelhas, que são as responsáveis por polinizar as flores.
Sem vendas
A Rede Terra do Meio existe há pouco mais de dez anos e, pela primeira vez, não há expectativas de venda relevante de castanha. Até o momento, menos de cem caixas de 20 litros de volume foram coletadas, o que corresponde a 2 metros cúbicos. Coordenadora do Instituto Socioambiental (ISA) na Terra do Meio, Fabíola Moreira lembra que a renda gerada no ciclo da castanha é essencial para o sustento das famílias durante o ano inteiro.
— Sem a venda da castanha, as famílias têm mais dificuldades para comprar itens da cidade e cuidar da saúde. As comunidades vivem na pele os reflexos da crise climática. Não é mais algo do futuro, mas o presente deles. É necessário que políticas públicas sejam pensadas a fim de minimizar os impactos e dar condições de adaptação às mudanças — cobra Moreira, que critica a demora na decretação de situação de calamidade pública para a região, que facilita o acesso a doações. — Às vezes, quando sai o decreto, o rio já secou e não permite a navegação para entrega das cestas. A Resex Riozinho do Anfrísio chegou a ficar isolada em 2024, com poucos pontos possíveis de navegação.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/Q/J/0BICIBSMGc9Gp35rkTCA/108185062-altamira-12-11-2019-amazonia-centro-do-mundo-ribeirinhos-indigenas-quilombolas-cient.jpg)
Em algumas comunidades da Terra do Meio, os moradores estão comprando ou trocando alimentos com os vizinhos, conta Moreira. Além disso, os pontos de abastecimento receberam produtos doados como farinha, borracha e sementes, para facilitar as trocas.
Ciclo de três anos
Os ciclos da castanha se repetem a cada três anos, explica Luiz Brasi Filho, gerente da rede Origens Brasil do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). A safra é muito boa no primeiro ano e declina até o terceiro, quando o ciclo se reinicia. O período de 2024 a 2025 já seria o de menor safra neste intervalo, mas não se esperava algo tão ruim.
— Estamos colhendo os frutos da seca histórica. Não é só na Terra do Meio, está acontecendo em todos os estados — frisa Brasi, que aproxima empresas de comunidades tradicionais em todos os estados amazônicos. — Em Rondônia, a Embrapa divulgou uma nota técnica estimando a redução de 85% no volume de castanha na Terra Indígena Rio Branco.
Brasi trabalha com castanhas há dez anos e só havia visto uma situação similar no período de 2016 e 2017, quando a Embrapa apontou uma redução de 70% na produção. Ainda não há dados consolidados sobre a safra atual, e as estatísticas de extração sofrem com falta de padronização. Mas o cálculo é que esse recorde negativo deve ser superado.
— Os eventos drásticos estão acontecendo com frequência maior, e são cada vez mais intensos — alerta Brasi. — Isso afeta o mercado. Os preços da castanha já estão muito altos, assim como acontece com o café e o ovo. Muitas vezes o mercado substitui a castanha da Amazônia pela de caju ou uma internacional. Mas aqui a diferença é que as comunidades são extremamente impactadas.
Em uma nota técnica publicada na semana passada, a Embrapa Rondônia reconheceu que as altas temperaturas resultaram na falta do produto em todas as regiões da Amazônia. Mas a empresa vinculada ao Ministério da Agricultura destacou que há uma forte possibilidade de recuperação da produção na safra de 2025 e 2026. Com essa perspectiva, a Embrapa recomenda que sejam mantidas as linhas de produção, a gestão dos estoques, a flexibilização de contratos e negociações, o apoio a financiamentos e a informação transparente ao mercado para enfrentar a quebra da safra.
Questionado sobre a crise da castanha, o Ministério do Meio Ambiente informou que atua para mitigar os impactos da seca da Amazônia e citou medidas emergenciais. Entre elas, o reforço do Programa Bolsa Verde, que atende mais de 53 mil famílias, e a elaboração do Plano de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais.
Por Lucas Altino – O Globo