Telegrama enviado ao Encontro de Bispos da Pan-Amazônia defende a “clareza e caridade” no anúncio de Jesus Cristo, mas especialistas alertam para riscos de apagamento das culturas indígenas.
Manaus (AM) – Durante o Encontro de Bispos da Pan-Amazônia, realizado em Bogotá, na Colômbia, o Papa Leão XIV enviou um telegrama reforçando o papel da Igreja Católica na região. A mensagem, assinada pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, destacou a necessidade de anunciar Jesus Cristo “com clareza e imensa caridade entre os habitantes da Amazônia” e defendeu o cuidado da chamada “casa comum” como dever confiado por Deus.
Segundo o pontífice, a missão pastoral deve se basear em três dimensões interligadas: a evangelização, a justiça social para os povos da Amazônia e a preservação ambiental. “É necessário que Jesus Cristo, em quem se recapitulam todas as coisas, seja anunciado (…) de tal forma que lhes demos o pão fresco e límpido da Boa Nova e o alimento celeste da Eucaristia”, diz o documento.
O evento reúne mais de 90 bispos de 76 jurisdições eclesiásticas dos nove países amazônicos e é o primeiro grande encontro episcopal desde o Sínodo da Amazônia, realizado em 2019.
O outro lado: risco de apagamento cultural
Apesar do tom pastoral, o discurso do Papa reacende discussões antigas sobre a atuação da Igreja na Amazônia. Para estudiosos, lideranças indígenas e movimentos sociais, a insistência na evangelização pode representar uma ameaça direta às tradições, cosmologias e modos de vida milenares.
Historicamente, a catequização esteve ligada ao processo de colonização da região, que resultou na perda de línguas, rituais e identidades. Ao defender que a salvação está unicamente no Cristo anunciado pela Igreja, abre-se espaço para a continuidade de uma narrativa que coloca culturas originárias em posição de “incompletas” ou “inferiores”.
“Esse discurso de evangelizar os povos indígenas, ainda que envolto em palavras como caridade e justiça, ecoa a lógica da colonização. É uma visão que ignora que esses povos já têm suas espiritualidades, suas formas de compreender o mundo e de se relacionar com a natureza”, comenta uma pesquisadora amazonense ouvida pela reportagem.
Fé, diversidade e futuro da Amazônia
A Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama), criada em 2021 a partir das reflexões do Sínodo, busca justamente integrar bispos, leigos, mulheres e povos originários no debate sobre o futuro da Igreja na região. No entanto, ao reforçar a evangelização como caminho central, o telegrama de Leão XIV expõe uma contradição: como conciliar o respeito à diversidade cultural com o objetivo de levar adiante uma fé universalizante?
Enquanto bispos discutem novos caminhos pastorais em Bogotá, na própria floresta vozes indígenas continuam a reivindicar autonomia e respeito às suas práticas espirituais. Para eles, defender a Amazônia significa também proteger os modos de existir e acreditar que resistem há séculos, antes mesmo da chegada dos colonizadores.







