Região da Amazônia Legal concentra hoje os maiores índices de abuso e exploração de crianças e adolescentes no Brasil
Uma reportagem publicada em 1997 pelo jornal O Globo trouxe à tona uma realidade brutal da capital amazonense: bares-cassino conhecidos como “Disneylândias do sexo”, onde meninas entre 12 e 16 anos eram exploradas por frequentadores que iam de corretores de seguros a policiais e advogados. Quase três décadas depois, o tema volta a ganhar destaque nacional, em meio a novos dados que apontam a Amazônia Legal como a região com os piores índices de violência sexual contra crianças e adolescentes no país.
O caso da menina L., então com 13 anos, ilustrou a perversidade do sistema. Durante o dia, ela brincava de amarelinha e assistia à apresentadora Angélica na televisão. À tarde, obrigada pela própria mãe, era levada a bares de Manaus para atender homens que pagavam cerca de R$ 15 por programas sexuais. A cena foi registrada por jornalistas infiltrados, que flagraram um corretor de 56 anos negociando a exploração da criança sem qualquer constrangimento. Em seguida, ele a levou para um motel, onde, por apenas R$ 5, era possível se hospedar com menores sem exigência de documentos.

Na época, os bares Holanda, Natureza e Jacutinga eram símbolos de um submundo marcado por roletas, exploração de meninas e conivência policial. Relatos coletados por jornalistas mostraram crianças com cicatrizes de agressões, vítimas de abusadores que frequentemente não pagavam pelo serviço e ainda ameaçavam as menores. Muitos desses jovens eram trazidos do interior do Amazonas pelos próprios pais, em uma realidade de fome e violência doméstica.
A repercussão levou a operações policiais e à prisão de alguns envolvidos, incluindo um delegado da Polícia Civil que, anos depois, chegaria a ocupar a chefia da instituição. Contudo, apesar das batidas e do fechamento de parte dos bares, a exploração sexual de crianças não foi erradicada — apenas se reinventou. Segundo o repórter Amaury Ribeiro Jr., autor do livro Poderosos pedófilos: Cidadãos de bem que roubam e exploram a infância no Brasil, lançado em 2000, a prostituição infantil migrou para a internet, onde continua sendo alimentada por redes criminosas.

Amazônia concentra os piores índices
Um relatório recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que seis dos dez estados com os maiores índices de violência sexual contra crianças e adolescentes estão na Amazônia Legal. Entre 2021 e 2023, a região registrou mais de 38 mil casos de estupro de vítimas de até 19 anos e quase 3 mil mortes violentas intencionais nessa faixa etária.
Os números são alarmantes: somente em 2023, a Amazônia registrou uma taxa de 141,3 casos de violência sexual a cada 100 mil crianças e adolescentes — 21,4% acima da média nacional, que foi de 116,4. Os dados revelam que, apesar da comoção causada pelas reportagens nos anos 1990, a exploração sexual de menores na região segue sendo uma chaga aberta, agora com novas formas de atuação e ainda marcada pela impunidade.
O problema é agravado pela combinação de vulnerabilidade social, ausência de políticas públicas eficazes e atuação de redes criminosas que se aproveitam da pobreza de famílias ribeirinhas e indígenas. Instituições como a Casa Mamãe Margarida, em Manaus, continuam sendo um dos poucos refúgios para meninas vítimas de violência, repetindo uma luta que já durava nos anos 1990.
A volta do tema ao debate nacional expõe não apenas a permanência do problema, mas também a necessidade urgente de enfrentar, com ações integradas e permanentes, a exploração sexual infantil na Amazônia — uma ferida que atravessa gerações.







