É interessante perceber como Tron: Ares surge não apenas como uma continuação tardia de uma franquia que sempre esteve à frente de seu tempo, mas como uma espécie de espelho do presente. O novo longa ressignifica os dois filmes anteriores ao trazer para o centro do debate algo que hoje domina o mundo real: a corrida das Big Techs pelos avanços tecnológicos e o dilema sobre até onde a inteligência artificial pode ir sem perder o toque humano. Sob a direção de Joachim Rønning — que já havia mostrado sua criatividade em Malévola: Dona do Mal e Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar, ainda que sem um verdadeiro trunfo autoral — o cineasta finalmente encontra em Tron: Ares um universo que dialoga com seu olhar imagético e seu gosto por mundos grandiosos. Aqui, Rønning parece compreender que, em meio a códigos e circuitos, o que realmente importa é a humanidade que resiste dentro da máquina.

Em meio ao espetáculo visual característico da franquia, Tron: Ares encontra força quando deixa que suas imagens respirem mais do que os próprios efeitos. É curioso como, dentro de um mundo digitalmente perfeito, a imperfeição se torna o que mais fascina: os personagens carregam dúvidas, medos e desejos que lembram o espectador de que o controle total, sonhado pelas grandes corporações, é sempre uma ilusão. Ares, figura central desta nova história, é tanto criação quanto criador — um produto de algoritmos que começa a questionar a lógica de quem o programou. Nesse ponto, o filme reflete o próprio momento em que vivemos, em que a inteligência artificial e as tecnologias emergentes parecem testar nossos limites éticos e emocionais.
Também é interessante observar como Tron: Ares se revela, em muitos aspectos, um filme de energia feminina. As presenças de Greta Lee e Gillian Anderson trazem à narrativa uma imponência que contrasta com o domínio masculino característico desse universo corporativo e tecnológico. Mesmo que Jared Leto assuma o papel de Tron — o grande guerreiro a serviço da empresa comandada pelo personagem de Evan Peters —, é Atenas, interpretada por Jodie Turner-Smith, quem verdadeiramente encarna o espírito do filme. Como programa que se recusa a ser mera ferramenta, ela representa a força e a inteligência que desafiam a lógica hierárquica das máquinas e dos homens que as controlam. Nesse equilíbrio entre razão e sensibilidade, Tron: Ares encontra um novo pulso — o de um mundo digital onde o feminino também é poder, criação e resistência.

Rønning demonstra aqui um controle visual raro dentro das produções da Disney contemporânea. Sua mise-en-scène não se limita ao deslumbramento digital; há um senso de composição que valoriza a escala e o movimento, mas também a solidão dos personagens dentro de um espaço sintético. A fotografia aposta em contrastes de luz e cor que evocam o neon clássico do filme de 1982, agora reinterpretado como um campo de batalha emocional entre o humano e o artificial. Mesmo quando o espetáculo fala mais alto — nas sequências de perseguição ou nas imersões dentro da rede —, há uma intenção dramática que o aproxima de autores que buscam sentido na grandiosidade. Rønning, enfim, encontra em Tron: Ares a oportunidade de transformar o que antes era pura técnica em expressão, algo que seus filmes anteriores apenas ensaiavam.
No fim, Tron: Ares não é apenas uma nova entrada em uma franquia de culto, mas um filme que olha para o próprio tempo com estranhamento e esperança. Ao mesmo tempo em que reconhece a inevitável fusão entre homem e máquina, ele insiste que o erro, o afeto e a empatia ainda são o que move qualquer criação digna de existir. É como se o universo digital criado décadas atrás por Steven Lisberger finalmente encontrasse sua emoção — não mais na promessa de um futuro perfeito, mas na aceitação de que o humano é o que desestabiliza e dá sentido à perfeição. Joachim Rønning, enfim, transforma Tron: Ares em um espetáculo que não se contenta com a superfície do brilho, mas busca a centelha que ainda pulsa por trás das telas.







