O cinema de James Gunn sempre esteve mais interessado no agora do que em qualquer outra coisa. Seus filmes – mesmo os mais espaciais, exagerados, fantásticos – refletem as neuroses, tensões e absurdos de um mundo contemporâneo que parece sempre à beira de algum colapso. Superman, seu novo trabalho e início oficial do chamado “DCU”, entra de cabeça nessa proposta, mesmo com um tom bem mais leve, cômico e visualmente estilizado do que os projetos anteriores do diretor, como O Esquadrão Suicida (2021), que trazia uma crítica política mais escancarada.
Aqui, Gunn centraliza os conflitos nos países ficcionais Boravia e Jarhanpur, evocando uma espécie de Guerra Fria de teatro, em que Superman surge como uma figura de intervenção, mas também como interseção: símbolo ideal de paz e imparcialidade em meio à tensão ideológica que parece não ter mais lados tão definidos. O resultado é um filme que mistura diplomacia interestadual com ceticismo millennial. Tudo muito bonito, muito colorido, e meticulosamente composto.

Visualmente, há ecos diretos do cinema de Wes Anderson, com seus quadros milimetricamente alinhados, paletas cuidadosamente elaboradas e um cinismo lúdico que transforma a tragédia em estética. Gunn brinca com os signos visuais da linguagem dos quadrinhos como se folheasse um gibi estilizado em tempo real, criando uma Metropolis que mais parece uma maquete gigante, viva e pulsante.
Mas se a forma encanta, o conteúdo às vezes tropeça. Há algo na montagem do filme que incomoda. Cortes abruptos, transições mal costuradas, elipses preguiçosas. Existe uma cena, por exemplo, em que um monstrinho é lançado na cidade – quase um gremlin dos tempos modernos –, há um fade para o preto, e quando a imagem retorna, o bicho já está gigante destruindo tudo. Dá para entender o que aconteceu, mas por que escurecer a tela em um filme visualmente tão rico? Essas soluções de montagem soam como rasgos num tecido narrativo que tenta ser tão coeso quanto sua estética sugere.

E não adianta usar a velha desculpa de que “é só um filme de super-herói”. A linguagem das HQs foi levada ao ápice cinematográfico em Speed Racer (2008), que soube fazer de cada transição e sobreposição uma continuidade orgânica da ação e da emoção. Aqui, Gunn parece mais interessado em fazer rir do que em fazer fluir.
Ainda assim, há muito a se admirar. A redação do Planeta Diário funciona como um coletivo de vozes que busca compreender e intervir na guerra iminente com algo raro hoje em dia: jornalismo. Entre sacadas recorrentes e tiradas irônicas, o roteiro encontra espaço para discutir a importância da informação, do discurso e da linguagem como armas de resistência. Uma das melhores metáforas do filme envolve símios que destilam ódio na internet, manipulados por uma mente humana – uma extrapolação quase trágica do nosso tempo. E mesmo isso sendo hilário, o riso aqui é amargo, ácido, um lembrete do absurdo cotidiano.

No campo do humor, o grande acerto é Krypto. O cão rouba a cena não só pela fofura, mas por ser um respiro emotivo no meio da barulheira cínica. Sua presença na trama carrega uma ternura quase anacrônica, e a cena de seu resgate é uma das mais bem dirigidas de todo o filme. Também é bonito ver Gunn mergulhar em uma história de amor que não está apenas no casal Clark e Lois, mas no amor que Clark tem pela humanidade – um amor que entra em crise quando seus pais são expostos por uma declaração controversa, fazendo o herói virar, momentaneamente, um vilão no imaginário popular.
E aí entra Lex Luthor – interpretado por um Nicholas Hoult inspirado – como a mais direta alegoria de Elon Musk. Um idiota com poder demais, que se diz preocupado com o bem-estar global, mas que claramente só quer status e controle. O falso moralismo de Luthor é apenas mais um sintoma do mundo que Gunn desenha: cínico, exagerado e absolutamente atual.
No fim, Superman é um filme sobre amor e guerra. Sobre a forma como o herói pode ser usado como ferramenta geopolítica, mas também como símbolo de empatia. É um longa com falhas visíveis, especialmente na construção de sua narrativa, mas que se mantém relevante e corajoso em sua proposta. Gunn pode não ter feito o filme definitivo do Superman, mas fez, talvez, o mais peculiar.
E só por isso já vale o voo.







