Caco Souza retorna ao cinema com Atena, um filme que mergulha na crueza das cidades brasileiras, transformando concreto e fumaça em palco de mitologias urbanas. Ambientado no Rio Grande do Sul, o longa tenta dialogar com o feminicídio e com a violência estrutural que devora mulheres em um país que naturalizou a barbárie. Há uma intenção clara de denúncia, mas que se fragiliza à medida que o filme aposta em cenas gráficas de violência, transformando em espetáculo aquilo que deveria ser reflexão.
Souza parece buscar uma catarse emocional para a personagem central, vítima de abuso paterno na infância, mas seu sofrimento se torna um mero trampolim narrativo, desprovido de peso real. A violência contra a mulher, em vez de gerar consciência, flerta com a glamorização involuntária da barbárie, como se o corpo feminino existisse apenas para mover a história adiante. Em certos momentos, a câmera quase repete o ciclo do abuso, revitimizando a personagem ao transformar sua dor em elemento de entretenimento.
O filme ainda tropeça em questões técnicas que reforçam essa sensação de desleixo. A cópia antecipada que tive acesso pela cabine online estava mal mixada, com som irregular e ausência de unidade na edição, dando a impressão de que as faixas foram simplesmente jogadas sobre as imagens. Não creio que esta seja a montagem final do longa, mas a precariedade do que vi inviabiliza qualquer imersão.
Mesmo que exista uma versão final mais refinada, não pretendo assisti-la. Atena é um filme que, apesar de raros lampejos de cinema investigativo e da tentativa de abordar temas urgentes, falha em praticamente todos os aspectos. Sua maior aposta narrativa — a violência contra a mulher — é justamente onde ele se torna mais errático e desconfortável, beirando a exploração. Ao insistir nesses momentos, o filme dobra não apenas o impacto gráfico, mas também os equívocos éticos que o transformam em uma experiência amarga e, no fim, inviável.







