Manifestantes indígenas e ambientais ocuparam a Zona Azul sob críticas ao governo e pedidos por justiça climática; governo brasileiro minimiza e chama de “caso isolado”
O segundo dia da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA), terminou em confronto entre manifestantes indígenas, ribeirinhos e ativistas ambientais e a equipe de segurança da ONU. O episódio ocorreu na noite de terça-feira (11), dentro da chamada Zona Azul, área diplomática de acesso restrito, e ganhou repercussão internacional.
Sob gritos de “taxar bilionários” e palavras de ordem em defesa da Amazônia, o grupo protestava contra a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas, o Marco Temporal e o Projeto de Lei 2159/2021, apelidado de “PL da Devastação”, que flexibiliza o licenciamento ambiental no país. As lideranças alegaram que as ações foram motivadas pela falta de visibilidade e representatividade das comunidades tradicionais nas negociações climáticas da conferência.
Vídeos feitos no local mostram manifestantes com trajes indígenas e bandeiras de movimentos estudantis tentando avançar sobre a barreira de segurança, rompendo a área de revista e controle de acesso. Portas foram forçadas, mesas e cadeiras usadas como bloqueio e houve confronto físico com os seguranças, deixando ao menos dois agentes feridos. Profissionais da imprensa também relataram hostilidade e danos a equipamentos durante a cobertura.
A ONU confirmou a investigação do caso e reforçou que “os protocolos de segurança foram acionados”.
Marcha pacífica e dissidência
A ação dentro do Hangar Centro de Convenções da Amazônia ocorreu logo após o encerramento da Marcha Global pela Saúde e Clima, organizada por entidades da sociedade civil. Em nota, os organizadores afirmaram não ter relação com o episódio na Zona Azul e destacaram que a marcha havia sido comunicada às autoridades e finalizada de forma pacífica.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) também se manifestou, destacando que não coordenou a ocupação, mas defendeu o direito à manifestação e a autonomia dos povos. Segundo a entidade, mais de três mil indígenas brasileiros e estrangeiros participam da COP30, buscando espaço nas decisões sobre o enfrentamento à crise climática.
“O movimento indígena sabe o que veio fazer e conhece o espaço que ocupa: estamos aqui para continuar arrancando compromissos e reafirmando que a resposta somos nós”, diz a nota da Apib.
Repercussão internacional
A repercussão do tumulto ganhou manchetes em diversos veículos estrangeiros. O britânico The Telegraph destacou a “violência dos ativistas”, enquanto a France 24 e a Associated Press contextualizaram o episódio como uma reivindicação por mais voz nas negociações e na gestão florestal. A BBC relatou que repórteres presenciaram a retirada de delegados da área, e a Reuters citou o relato de um segurança atingido por um tambor.
O caso reforçou o debate global sobre segurança, transparência e representatividade indígena nas decisões da COP30, que pela primeira vez ocorre na Amazônia.
Posicionamento do governo brasileiro
No dia seguinte ao episódio, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, classificou o ocorrido como “um fato isolado” e minimizou os impactos políticos da invasão.
“Aqui dentro da COP, os povos originários, com suas experiências, são importantes. Estamos reconhecendo também os povos originários como portadores de possibilidades da relação do povo com a natureza”, afirmou a ministra, em entrevista na Zona Verde.
Ela negou que haja falta de representatividade indígena nas negociações e destacou o papel da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, como liderança nas discussões.
Entre pautas ambientais e disputas políticas
Além das críticas à política ambiental do governo federal, alguns manifestantes também entoaram gritos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo coerência entre o discurso de preservação e as decisões sobre exploração de recursos na Amazônia.
As reivindicações do grupo, que envolveram justiça climática, defesa dos povos tradicionais e taxação de grandes fortunas, evidenciam as tensões entre o governo e movimentos sociais no palco da conferência.
Com a COP30 reunindo líderes mundiais e chefes de Estado, o episódio em Belém expôs o desafio de conciliar a diplomacia ambiental com as demandas históricas da Amazônia, num momento em que o planeta inteiro volta os olhos para o Norte do Brasil.
* Com informação complementares de Agência Cenarium







