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Crítica | Extermínio: A Evolução — Um balé punk sobre a raiva, o caos e o afeto no fim do mundo

O poema Boots, de Rudyard Kipling, reverbera como um mantra exausto na abertura de Extermínio: A Evolução, embalado pela batida pulsante do Young Fathers e imagens da Segunda Guerra dos Bôeres. Escrito em 1903 e publicado em 1915, o poema carrega o desgaste psicológico da marcha militar britânica, repetitiva, desumanizante. Sua presença aqui é mais que um gesto poético: é um marco da sobreposição entre passado e presente, ficção e ruína, onde Danny Boyle tece seu retorno triunfal ao universo que ele mesmo inaugurou em 2002, agora mais maduro, mais caótico e, paradoxalmente, mais sensível.

É impossível falar deste filme sem olhar para o que o primeiro representou. Gravado com uma Canon XL1, sujo, brutal, desesperado. Aqui, 23 anos depois, Boyle filma com 20 iPhones 15 Pro Max, mas mantém a essência: o digital como linguagem, não truque. A granulação da imagem volta com propósito, sujando a tela com urgência. As movimentações de câmera são erráticas, mas fluídas, coreografadas como se o caos tivesse ritmo. Extermínio: A Evolução é, antes de tudo, uma experiência sensorial sobre a guerra — emocional, ideológica e física.

O filme começa de onde o segundo parou: a infecção alcança a França e se espalha. Mas Boyle não está interessado em repetir fórmulas de apocalipse. A raiva — o vírus — continua se espalhando em segundos, um conceito que se mantém assustadoramente eficaz, até hoje incomparável em ritmo e impacto. Há ecos de The Last of Us, mas Boyle já estava lá antes. E mesmo ele, em entrevistas, já indicava como The Walking Dead se apropriou de parte da mitologia que sua saga ajudou a estabelecer. Seu retorno agora é menos sobre nostalgia e mais sobre legado.

E é aqui que entra a potência dramática do filme. Jodie Comer e Aaron Taylor-Johnson vivem os pais de Alfie Williams, verdadeiro coração emocional da narrativa. A jornada de mãe e filho é quase um road movie distópico, poético, melancólico. O mundo está em ruínas, mas há um amor — ainda que em frangalhos — tentando sobreviver. A doença aqui não é apenas o vírus: é o câncer, é a solidão, é o desespero de não pertencer a lugar algum. O que nos assombra é o que ainda sentimos, não o que perdemos.

Há, também, uma consciência trágica de que o verdadeiro horror sempre vem do humano. Como no primeiro filme, os infectados são apenas o catalisador. O câncer real é a incapacidade da sociedade de sustentar qualquer ordem diante do colapso. E Boyle, mais do que nunca, entende isso. Seu cinema pulsa nessa tensão entre brutalidade e lirismo, e aqui isso se revela com força especialmente nas cenas de ação estilizadas — erráticas, cruas, mas fluídas como sinfonias do caos. Há algo de milagroso na forma como ele encena as mortes, como explode sequências de tensão quase como num balé punk que usa o digital não como truque, mas como estética narrativa. E se essa força visual reverbera tanto, é também porque o roteiro de Alex Garland — que volta a colaborar com Boyle depois de projetos autorais de grande personalidade — encontra caminhos criativos para contar uma história de tons fantásticos com pesos dramáticos intensos, criando paralelos emocionais entre as relações humanas em ruína e reconstrução. Um gesto narrativo que só potencializa a densidade poética que pulsa em cada desespero vivido.

É curioso perceber que, se Garland em Guerra Civil (2024) criava uma alegoria em torno da comunicação como arma e da distorção da realidade, aqui ele trabalha de forma mais direta, mais crua. O conflito é real, baseado em sensações vividas. A guerra já aconteceu. E o que sobra são ruínas, paisagens desoladas e uma câmera que observa, sente, corre junto com seus personagens. Mas mesmo assim, ainda há espaço para ternura. Para afeto. Para humanidade.

Boyle não quer fazer o maior filme de zumbis do ano. Ele quer fazer o mais humano. E talvez tenha conseguido. Se James Cameron é para Avatar, Danny Boyle é para Extermínio: um autor que transforma tecnologia em poesia, velocidade em substância. Porque quando tudo desaba, ainda resta o toque, o olhar, o afeto entre mãe e filho. E isso, por si só, é revolucionário.

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Lucas Cine

Redator chefe de entretenimento da Update Manauara. Crítico de cinema, apresentador do Lucas Cine Podcast e fã de terror.

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