Existe algo curioso na forma como Steven Spielberg retorna à ficção científica ao longo da carreira. Enquanto muitos cineastas utilizam o gênero para imaginar o futuro, o diretor sempre parece interessado em compreender o presente. Os extraterrestres de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, a invasão de Guerra dos Mundos ou os dilemas existenciais de Inteligência Artificial nunca foram apenas sobre aquilo que existe além das estrelas, mas sobre a maneira como reagimos ao desconhecido. Em Dia D, seu novo filme, Spielberg volta a olhar para o céu para falar de algo profundamente terreno: quem controla a informação e quem decide quais verdades a humanidade está pronta para conhecer. O título original, O Dia da Revelação, sintetiza melhor as intenções da obra do que a simplificação adotada na distribuição brasileira. Afinal, o filme gira justamente em torno do ato de revelar, esconder e controlar. Durante décadas, histórias sobre avistamentos, contatos e fenômenos inexplicáveis foram recebidas com desconfiança, ridicularização ou silêncio institucional. Spielberg transforma esse conflito em motor dramático e constrói uma narrativa que investiga não apenas o fenômeno em si, mas principalmente a reação humana diante dele. Por uma curiosa coincidência, a proposta dialoga com um caso recente ocorrido no Brasil. O cuidador de animais Mayk Leão, em Campo Largo, no Paraná, viu sua vida ser virada de cabeça para baixo após registrar nos stories do Instagram algo que acreditava ser um objeto estranho nos céus. Em pouco tempo, surgiram curiosos, piadas, ataques e teorias de todos os tipos. Independentemente da natureza do acontecimento, a reação coletiva revelou algo que interessa muito mais a Spielberg: nossa incapacidade de lidar de forma equilibrada com aquilo que desafia consensos estabelecidos. Essa preocupação atravessa todo o filme. A velha justificativa de que “o mundo não está preparado” para determinadas descobertas aparece repetidamente como ferramenta de controle. Mas preparado para quê? Se a humanidade construiu civilizações inteiras sustentadas por crenças, religiões e narrativas capazes de explicar aquilo que não compreendia, por que a possibilidade de uma nova verdade seria necessariamente destrutiva? Spielberg não busca respostas definitivas. Seu cinema sempre foi mais fascinado pelas perguntas. É justamente nesse terreno que Dia D encontra seus melhores momentos. Longe do espetáculo de destruição que marcou parte de sua filmografia, o diretor realiza um filme surpreendentemente contido. O fascínio estampado nos rostos dos personagens, o brilho nos olhos diante do impossível e a curiosidade infantil que atravessa a descoberta do extraordinário remetem ao Spielberg mais humano. Mesmo as perseguições e cenas de ação carregam a elegância visual característica de um cineasta que continua sabendo exatamente onde posicionar a câmera para transformar movimento em encantamento. Ao mesmo tempo, o filme sugere que a verdadeira prisão da humanidade talvez não seja física, mas imaginativa. Vivemos tão consumidos pelas exigências da produtividade, dos compromissos cotidianos e da sobrevivência prática que perdemos a capacidade de contemplar o desconhecido. O medo passa a ser vendido como prudência. A ignorância se torna conforto. E a fantasia, em vez de abrir portas para novas possibilidades, é tratada como ameaça à ordem estabelecida. Essa leitura ganha força graças à encenação de Spielberg, mas encontra obstáculos no roteiro de David Koepp. O escritor parece incapaz de acompanhar plenamente a dimensão das questões levantadas pelo diretor. Em diversos momentos, a narrativa abandona reflexões instigantes para investir em situações simplificadas que confundem fantasia com infantilidade. O problema não está na leveza – característica presente em diversos trabalhos do cineasta -, mas na sensação de que determinadas sequências pertencem a um filme menos interessado em suas próprias ideias. A irregularidade também aparece na trilha sonora de John Williams. Embora funcione dentro da narrativa, a composição raramente alcança o impacto emocional das parcerias históricas entre os dois artistas. Há momentos em que a música soa quase como uma lembrança distante de trabalhos anteriores, sem encontrar uma identidade própria capaz de elevar as imagens da maneira como Williams tantas vezes fez ao longo da carreira. Quem impede que essas limitações comprometam totalmente a experiência são Emily Blunt e Josh O’Connor. Os dois compreendem que o centro da narrativa não está nas respostas, mas na dúvida. Funcionam como extensões do olhar do espectador, traduzindo inquietação, fascínio e medo através da fisicalidade dos corpos, dos silêncios e dos pequenos gestos. Existe uma ambiguidade interessante na relação construída entre seus personagens, especialmente quando certas revelações começam a redefinir aquilo que acreditavam saber sobre si mesmos. Mais uma vez, o roteiro não cria espaço suficiente para explorar todas as consequências dessas descobertas. Informações surgem em velocidade acelerada, novas perguntas substituem as anteriores e alguns conflitos emocionais acabam sendo resolvidos antes de amadurecer. Ainda assim, a entrega dos atores sustenta a humanidade necessária para que o filme permaneça envolvente mesmo quando tropeça em suas próprias limitações. Entre erros e acertos, Dia D talvez esteja longe das maiores obras de Steven Spielberg. Ainda assim, permanece profundamente conectado às inquietações que acompanham sua filmografia há décadas. Ao revisitar temas como o controle da informação, a manipulação institucional da verdade e a necessidade humana de acreditar em algo maior do que si mesma, o diretor realiza um filme que olha para o cosmos para discutir aquilo que estamos nos tornando aqui embaixo. No fim, mais do que uma história sobre vida extraterrestre, Dia D é um filme sobre imaginação. Sobre a capacidade de questionar aquilo que nos é apresentado como verdade absoluta. Sobre a coragem de olhar para além do próprio quintal. E sobre a possibilidade de que o maior mistério do universo talvez não seja quem está nos observando do outro lado das estrelas, mas por que passamos tanto tempo convencidos de que não devemos olhar para elas.


