Dan Trachtenberg parece ter encontrado dentro do universo do Predador o espaço ideal para desenvolver uma visão particular de cinema. Em Predador: Terras Selvagens, o diretor consolida o que soa como uma trilogia autoral – ainda que não oficial – dentro de uma franquia que há décadas se equilibra entre o fetiche do monstro e a tentativa de reinventar sua própria mitologia. Se o primeiro longa do cineasta era um retorno ao espírito de sobrevivência, e o segundo assumia o flerte com o western e a estética da caça, este terceiro surge como o mais ambicioso e cósmico, interessado em explorar os limites da tecnologia, do artifício e da crença na imagem digital. A sensação é a de assistir a um King Kong (2004) dirigido por Trachtenberg. A comparação não é gratuita: há em Predador: Terras Selvagens a mesma fé que Peter Jackson depositava no artifício do digital, como se a computação gráfica pudesse ser uma extensão natural do olhar humano. Trachtenberg acredita nas imagens que constrói, acredita no mundo que filma – e essa crença dá ao longa um peso de espetáculo raro, especialmente quando o cinema de ação contemporâneo parece cada vez mais refém da superficialidade estética. O planeta selvagem criado por ele é crível porque é tratado com seriedade: o digital não é uma maquiagem, é parte da mise-en-scène, do gesto, da textura. Essa convicção visual é o que sustenta o filme mesmo quando o roteiro vacila. O texto parece, às vezes, obedecer à lógica de uma estrutura “gameficada”, com missões, níveis e objetivos claros, como se cada sequência fosse uma fase a ser superada. Trachtenberg, no entanto, transforma esse traço em linguagem – o olhar em primeira pessoa, os longos planos de observação, os momentos de espera e descoberta – tudo parece inspirado na sensação tátil dos videogames, onde o avanço se dá pela interação entre o corpo e o ambiente. A montagem e o som reforçam essa fisicalidade, e o espectador sente o perigo, o isolamento, o fascínio diante do desconhecido. Mas Predador: Terras Selvagens não é apenas uma aventura espacial. É também um comentário sobre a construção de mundos e sobre o próprio cinema de ficção científica contemporâneo. Em certos momentos, Trachtenberg parece conversar diretamente com Gareth Edwards – outro cineasta que transformou o digital em matéria viva. Assim como em The Creator ou Rogue One, há aqui uma tentativa de unir o tecnológico e o orgânico, a máquina e o ser, como se o elo que mantém o mundo funcional dependesse justamente dessa coexistência. O resultado é uma paisagem em que a selva alienígena, as estruturas metálicas e os corpos híbridos compartilham a mesma pulsação. Essa aproximação com Edwards se manifesta também na dimensão social que o filme insinua. Existe em Predador: Terras Selvagens um comentário contemporâneo sobre o uso da tecnologia e sobre como ela reflete o modo como os humanos — e suas extensões artificiais – se relacionam com o poder, a dominação e o próprio planeta. É uma leitura que ecoa debates urgentes, mas que o filme, por vezes, prefere apenas sugerir. Fora das – muitas e lindas – cenas de ação, o roteiro não alcança plenamente o potencial de expandir essa discussão para além da superfície. O gesto está lá, mas falta-lhe fôlego para transformar ideia em discurso. Ainda assim, dentro desse universo digital, o que mantém o filme vivo é Elle Fanning. Ela se torna o centro emocional e filosófico da história, interpretando duas psiques de uma mesma personagem: androides que vivem nos extremos da comunicação e do humor, do afeto e da indiferença. Fanning dá corpo e voz a um conflito que vai além da trama de sobrevivência. Sua performance, de contornos minimalistas, sugere que mesmo quando o corpo é máquina, a humanidade – ou a ausência dela – continua sendo o que move o olhar. Trachtenberg utiliza essa duplicidade como espelho para um dos debates mais relevantes do filme: a instrumentalização da mulher. Mesmo quando desumanizada, mesmo quando transformada em androide, a figura feminina continua sendo tratada com indiferença e preconceito. O corpo da mulher, real ou artificial, permanece visto como ferramenta, não como presença. Fanning traduz isso com uma serenidade dolorosa, alternando entre a precisão mecânica e o desespero silencioso de quem tenta existir em um mundo que a programou para servir. É um comentário sutil, mas potente – e talvez o ponto em que o filme mais se aproxima de algo verdadeiramente humano. Essa atenção ao corpo, à textura e à crença é o que faz Predador: Terras Selvagens transcender o mero produto de franquia. É interessante como, dentro de um projeto que poderia facilmente se reduzir a um prelúdio para futuros crossovers, Trachtenberg escolhe olhar para o aqui e agora do seu universo. As menções à empresa Weyland, à sombra de um eventual encontro com o universo Alien, estão lá como acenos inevitáveis, mas nunca roubam o foco. O diretor compreende que a força do cinema está naquilo que se vê e se sente. No fim das contas, Predador: Terras Selvagens é um filme sobre crer na imagem. Um gesto raro num tempo em que o digital é usado para esconder imperfeições, e não para revelar sensações. Trachtenberg filma a selva digital como se fosse algo sagrado, uma extensão do real, um espaço em que o artifício e a natureza coexistem em harmonia. Sua mise-en-scène é rigorosa, mas nunca fria; é feita de pixels, mas respira. Mesmo com um texto que nem sempre alcança a força de suas ideias, Trachtenberg entrega um espetáculo de crença – um cinema que olha para o impossível e o torna palpável. Predador: Terras Selvagens confirma que o melhor da ficção científica contemporânea não está na explicação, mas na experiência; não na mensagem, mas no olhar. É um filme que acredita no próprio mito, na arte de criar mundos e na beleza de ver o digital transformar-se, outra vez, em pura matéria.