Toda a programação é gratuita e os ingressos serão distribuídos uma hora antes de cada exibição A partir desta quinta-feira (16/10) até domingo (19/10), o Centro Cultural Casarão de Ideias (CCCI) promove a terceira edição do Cine Casarão Festival, evento que como o próprio nome diz é voltado para a chamada Sétima Arte. Com entrada gratuita, o festival contará com filmes regionais, nacionais e internacionais, e é uma parceria com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “O Casarão está preparado para mais uma edição do Cine Casarão Festival, evento que já entrou para o nosso calendário, e que tem como objetivo promover e debater o audiovisual em suas mais diferentes esferas, e tudo isso gratuitamente e com essa importante parceria com a Mostra de São Paulo. Nossas salas de exibição estão prontas e também ocuparemos a Rua Barroso com uma grande tela de projeção”, adianta João Fernandes, idealizador e realizador do festival. O festival será dividido em três partes, sendo uma delas com os filmes da Mostra Internacional de Cinema como: ‘A Sombra do Meu Pai’, que será exibido às 17h, nesta quinta; ‘Yunan’, que será exibido sexta-feira (17/10), às 16; e ‘Maya, Me Dê Um Título’, no sábado (18/10), às 16h. A segunda parte, é a Sessão Cine Set de Curtas, em parceria com o site Cine Set. Ainda na quinta, por exemplo, às 18h, o público poderá conferir os curtas ‘Boiuna’, do Pará; ‘Noke Koi’, do Acre e ‘DaSilva DaSelva’, do Amazonas. Na sexta, às 18h, os curtas exibidos serão: ‘Americana’, do Pará; ‘Ticar Bodó’, do Amazonas; ‘Dia dos Pais’, do Amazonas e ‘Planeta Fome’, de Rondônia. No sábado também haverá exibições e no domingo terá uma sessão em homenagem ao cineasta Roberto Kahane, que morreu aos 77 anos, no início deste mês. E a terceira e última parte é a ocupação da Rua Barroso, que será no domingo, às 19h30, com a exibição do longa-metragem ‘O Último Azul’, obra de Gabriel Mascaro, com cenas gravadas no Amazonas, e que mostra um Brasil quase distópico, onde o governo transfere idosos compulsoriamente para uma colônia habitacional para “desfrutar” seus últimos anos de vida, Tereza, uma mulher de 77 anos, embarca em uma jornada pelos rios da Amazônia para realizar seu último desejo. A programação completa está disponível no Instagram do Casarão de Ideias (@casaraodeideias) e os ingressos para as sessões serão distribuídos uma hora antes de cada exibição. O Cine Casarão Festival é um projeto Incentivado pela Lei Rouanet e com patrocínio do Banco Itaú, Eneva, Cigás e Bemol, e é uma realização do Ministério da Cultura e do Casarão de Ideias, por meio do Governo Federal – União e Reconstrução.
Crítica: Sirāt – A travessia entre o delírio e o vazio
Óliver Laxe transita e passeia — mesmo que sem sair do lugar — pelos desertos arenosos que podem ser em qualquer lugar, em qualquer realidade, evocando como ponto central de metalinguagem a crença islâmica: a ponte que cada pessoa deve atravessar, sobre o inferno, para chegar ao paraíso no Dia da Ressurreição. Mas toda essa jornada, cheia de rupturas escabrosas na construção de um sentimento único para chamar de seu, não consegue extrair a emoção que busca através dos vários acontecimentos e tragédias ao longo da trajetória daqueles personagens. Laxe vai de Comboio do Medo, de Friedkin, a Mad Max: Estrada da Fúria, culminando numa catarse interminável — uma tentativa crassa que quase emula um filme de Michael Haneke. Há um formalismo caricato e desesperançoso em Sirāt que parece carregar mais pretensão estética do que substância narrativa capaz de unir todos os seus elementos. Mesmo em sua tentativa de encenar a música como alicerce daquela realidade — e como fuga temporal dentro de um ciclo de violência que permanece fora de quadro —, o filme fica aquém. As festas e pulsações sonoras surgem como fragmentos de uma esquete, incapazes de sustentar o peso simbólico que lhes é atribuído. É tudo muito bonito, visualmente contemplativo, mas limitado em sua comunicação. O comentário sociopolítico, por outro lado, é instigante: as interseções entre ficção, realidade e guerra revelam uma vivência sentida, ainda que sem pertencer plenamente a nenhum lugar. Sirāt também brinca com a disparidade dos planos de perseguição e o deslocamento dos personagens, presos em uma realidade própria, buscando qualquer forma — breve ou ilusória — de fuga. Essa sensação de trânsito constante, tanto geográfico quanto existencial, é o que sustenta parte do interesse do filme. A ambição de Laxe em transformar o deserto em espaço de comunhão, conflito e transcendência não é nova, mas aqui ela parece ressoar de modo mais difuso. O deserto, que antes em seus filmes representava uma travessia espiritual, surge agora como uma zona de suspensão, onde o ruído das festas e o silêncio da paisagem coexistem sem necessariamente dialogar. O resultado é uma experiência fragmentada — tão hipnótica quanto frustrante. Há mérito evidente na forma como o filme se entrega ao sensorial. A música eletrônica e a vibração das luzes assumem uma fisicalidade rara, traduzindo o êxtase e a confusão de corpos em movimento. No entanto, falta uma espessura dramática que sustente o impacto visual. A música existe, pulsa, mas não atravessa completamente os personagens; parece confinada à superfície, a uma ideia de libertação que nunca se concretiza. Quando o filme tenta aproximar essa euforia da realidade política que o cerca — os ecos da guerra, da opressão, da resistência —, o gesto é nobre, mas o alcance é curto. O social aparece como sombra, não como pulsação interna da narrativa. As imagens têm força, mas o pensamento por trás delas raramente se manifesta de forma clara. A contemplação vira um refúgio, e não um enfrentamento. Sirāt acaba sendo um filme de belas intenções e presença sensorial admirável, mas que se esgota no próprio encantamento. Ele flutua entre o delírio e o vazio, entre a beleza e a repetição, como se quisesse dizer algo sobre o mundo e sobre a fé — mas parasse antes de realmente tocar em qualquer uma dessas dimensões. Ainda assim, há algo de genuinamente humano no modo como Laxe observa seus personagens: perdidos, desajustados, tentando existir em meio a uma paisagem que os ultrapassa. É justamente aí que reside o que o filme tem de mais interessante: na sua imperfeição, na tentativa de capturar uma experiência espiritual sem recorrer a dogmas. Sirāt é cinema como ritual — um gesto de busca. Mas, ao mesmo tempo, é cinema como frustração — o reconhecimento de que essa busca talvez não leve a lugar algum.


