Não há muito espaço para julgamentos definitivos em Stella: Vítima e Culpada. O filme assinado por Kilian Riedhof se desenha em torno de uma ausência — a de respostas fáceis — e aposta numa construção que desafia, incomoda e tensiona o espectador o tempo inteiro, especialmente pela maneira como Paula Beer encarna o papel-título. É a partir dela, e somente dela, que conseguimos transitar por esse labirinto emocional em que identidade e sobrevivência colidem com o peso histórico de uma culpa nacional. A trajetória de Stella Goldschlag, jovem judia que passa a colaborar com a Gestapo em plena Segunda Guerra Mundial, é uma ferida aberta da história alemã. Mas o filme não se interessa em simplesmente reconstitui-la como crônica histórica, e sim como ruína interna. Não há heroísmo, nem vilania pura. Há gestos. Há escolhas. Há um desejo de sobrevivência — que, na interpretação de Beer, nunca vem isento de inquietação. É nesse espaço entre o trauma e a escolha que o filme pulsa. Paula Beer, como já havia feito em Undine e Afire, transforma o íntimo de sua personagem em campo de batalha. A atriz parece se movimentar sempre entre o controle e o desmoronamento, como se Stella carregasse dentro de si uma linha tênue entre a lucidez e o colapso. É uma atuação silenciosa, cheia de microgestos, que grita através dos olhos — e que se sustenta mesmo quando o filme parece hesitar entre o que mostrar e o que deixar em sombra. Nesse sentido, é inevitável pensar no trabalho de Sandra Hüller em Anatomia de uma Queda, e mais recentemente, O Grande Golpe do Leste, onde o peso da performance se torna central para a construção do filme. Beer e Hüller têm em comum esse poder rarefeito de dilatar o tempo em cena. Visualmente sóbrio, o filme aposta num contraste constante entre o desejo e a culpa, entre o passado e a lembrança moldada. A encenação reforça essa ambiguidade ao trazer uma estrutura quase teatral de reencenação e depoimento — como se a verdade estivesse em disputa, e o tempo não fosse um aliado confiável. Essa estratégia aproxima o longa do território do tribunal da memória, mais do que de um drama convencional. A grande provocação que Stella: Vítima e Culpada nos oferece é justamente essa: e se o julgamento não for possível? E se todo esse percurso só nos restar como espelho de nós mesmos, de nossos limites diante da dor do outro, e da brutalidade com que o medo pode deformar qualquer convicção? A força do filme está menos na sua resolução e mais no que ela desencadeia. Stella não é desculpada. Também não é absolvida. O que resta, no fim, é a perturbação. Uma inquietude que segue com o espectador — e que talvez seja a única resposta possível.
Crítica – Echo Valley | Mãe e filha dividem a dor, mas o filme não compartilha com o público
Há um esforço claro em construir um drama psicológico em Echo Valley, novo longa da Apple TV+ dirigido por Michael Pearce, mas esse esforço parece sempre travado em seu próprio ponto de vista. Vemos as consequências se desdobrando, as emoções estourando, os silêncios pesando — tudo pela ótica da personagem de Julianne Moore. O problema? A maior parte das causas disso tudo está fora da tela, fora do alcance dramático, como se o filme decidisse acompanhar apenas os efeitos e esquecesse de dar corpo ao que os provoca. Sidney Sweeney interpreta a filha de Moore, uma jovem com problemas com drogas e um histórico de decisões destrutivas, mas raramente a vemos de fato. A narrativa se organiza como um quebra-cabeça em que as peças mais importantes ficam na caixa. E quando mãe e filha finalmente dividem o mesmo plano, há uma fagulha — o filme ameaça acender, tensionar, encontrar a fratura emocional que poderia guiar tudo aquilo. Só que essa fagulha logo se apaga. Nunca há uma combustão real. Em vez de encarar esse atrito, Pearce se refugia no belo cenário de Echo Valley. É como se a ambiência bastasse. Os campos, o estábulo, a névoa — tudo muito fotogênico, mas incapaz de traduzir algo além da própria superfície. Há um uso engessado da linguagem cinematográfica, preso ao plano/contraplano, sem um pensamento mais elaborado de como a câmera pode ser ferramenta para expandir e tensionar o drama. O que resta é uma estrutura de ação e consequência marcada por reviravoltas que destoam completamente do tom anterior. Isso é especialmente frustrante porque o roteiro é assinado por Brad Ingelsby, o mesmo de Mare of Easttown, série em que todos os elementos — tensão, emoção, atmosfera — se encaixavam com precisão. Aqui, o que se vê é um filme que tenta lidar com várias tramas paralelas, mas que acontece, majoritariamente, fora da tela. A filha vai e vem, a mãe tenta juntar os cacos, mas a câmera só acompanha quando é conveniente ou quando a trama exige. Quando deveria mergulhar, o filme prefere observar de longe. Domhnall Gleeson entrega uma performance sólida como o traficante que surge para cobrar as dívidas de Sweeney. Sua presença intensifica a sensação de ameaça e coloca a protagonista contra a parede. É nesse jogo de sobrevivência emocional e física que Echo Valley poderia encontrar sua força. Mas, de novo, falta fôlego. As melhores cenas — e também as mais dolorosas — são aquelas em que mãe e filha dividem a tela. Só nelas o filme parece lembrar que não adianta ter bons atores e bons cenários se não houver tensão real entre os corpos. No fim, Echo Valley é um drama que se contenta em parecer profundo. Tem bons atores, uma paisagem bonita e um roteiro com temas espinhosos, mas falta coragem — e cinema — para encarar de frente o que realmente importa. Fica o eco, mas o vale está vazio.
Crítica | Prédio Vazio- Quando o Horror é Ver Pela Beirada
Rodrigo Aragão compreende que o horror não mora apenas no que se vê, mas no que se desvia do olhar. Em Prédio Vazio, seu cinema amadurece não só na força estética que já lhe é característica, mas também na forma como encena o invisível — aquilo que só aparece quando o olhar perde o foco, quando se encara o mundo de soslaio, como quem pressente mais do que vê. Nesse jogo entre o real e o espectral, o Hotel Magdalena se transforma em corpo e memória, ruína e ameaça. Há ecos de Suspiria, de Dario Argento, no modo como a arquitetura se impõe sobre os personagens. Mas Aragão não se limita à homenagem: ele reinventa os espaços como agentes narrativos, onde cada corredor parece carregar o peso de uma lembrança sufocada. Assim como Sam Raimi em A Morte do Demônio, ele flerta com o cômico sem aliviar a tensão. Seus fantasmas, por exemplo, se aproximam dos deadites — mas não gritam. Sussurram. E surgem apenas quando se aceita ver diferente. Quando se aprende que, para enxergar o que assombra, é preciso antes desafiar a lógica do visível. É também nesse ponto que o lado místico do cinema de Aragão se revela: ele cria uma fantasia onde o fantástico não é ruptura, mas extensão da realidade. Ver os fantasmas não é atravessar o impossível, mas aprender a conviver com o que insiste em retornar — mesmo em silêncio. Mesmo desfocado. Nesse universo sensorial e psíquico, Caio Macedo encontra espaço para fazer de seu personagem mais do que um alívio cômico. Há nele uma urgência de sobrevivência — alguém que não luta contra o mal, mas que apenas deseja viver e amar, como se o próprio afeto fosse uma forma de resistência. Sua presença estabelece uma âncora emocional, um ponto de fuga no meio da ruína. Em contrapartida, Gilda Nomacce constrói uma figura de presença hipnótica. Não há respostas claras em sua personagem, e é exatamente isso que lhe dá potência. Gilda encarna o mistério com uma entrega silenciosa, profunda, tornando-se um canal para o insólito. Ela anda pelos cômodos do Magdalena como quem já esteve ali antes — ou como quem nunca saiu. A dupla formada por Rejane Arruda e Lorena Corrêa, como mãe e filha, traz ao centro do filme a dimensão mais sensível: o amor e o cuidado diante do colapso. É por meio delas que Prédio Vazio se permite falar sobre o território, sobre Guarapari, sobre como se forma um lugar que guarda histórias e feridas. A cidade, como nos filmes de Kleber Mendonça sobre Recife, é parte viva da dramaturgia: aparece solar, calorosa, em planos abertos e afetuosos — em completo contraste com a escuridão do hotel, que ironicamente se ergue diante do mar. Rodrigo Aragão reafirma aqui não só sua maestria técnica, mas seu olhar humano e poético sobre o terror. Prédio Vazio é uma obra onde o medo não é o fim, mas o meio. Onde os fantasmas surgem para lembrar que existe algo que ainda dói — e que, mesmo diante do medo, o desejo de viver persiste.
Crítica – O Grande Golpe do Leste | A Tragicomédia entre Muros e Risos
Há algo profundamente subversivo na forma como O Grande Golpe do Leste escolhe rir — e rir com gosto — diante do colapso de um regime, do fim de uma era e das cicatrizes que ela deixou. Dirigido por Natja Brunckhorst, o filme parte de um acontecimento real ocorrido no início dos anos 1990, mas recusa, com a mesma delicadeza com que se move, tratá-lo apenas como episódio histórico. O que se apresenta aqui é uma tragicomédia que, em vez de alimentar o peso dos grandes discursos, prefere habitar o miúdo: o gesto simples, o cotidiano desgovernado, o absurdo quase íntimo de quem tenta sobreviver à queda de um muro — e ao que veio depois dele. É impossível não pensar em Adeus, Lênin! como um parente próximo — não só pelo contexto ou pela ironia melancólica, mas sobretudo pela ternura como escolha narrativa. Brunckhorst filma seus personagens com empatia radical, dando-lhes espaço para falhar, trapacear, amar e insistir — sem nunca os ridicularizar. É nesse olhar doce, quase chapliniano, que o filme encontra fôlego para falar de temas áridos: desemprego, desorientação ideológica, apagamento de identidade. Nesse cenário onde a comédia não abafa o drama, mas o revela por outra via, Sandra Hüller se destaca com uma atuação que confirma seu lugar entre as grandes atrizes do cinema europeu contemporâneo. Seja na densidade contida de Sibyl ou no rigor cortante de Anatomia de uma Queda, Hüller tem se mostrado capaz de extrair de suas personagens uma humanidade vibrante, que pulsa em cada gesto e hesitação. Aqui, ela habita sua personagem com naturalidade, oscilando entre o cômico e o melancólico sem esforço visível, reafirmando essa rara habilidade de tornar suas figuras ficcionais não apenas críveis, mas vivas. O “golpe” do título, inspirado em um caso real envolvendo ex-agentes da Alemanha Oriental que tentam revender a tecnologia de escuta da Stasi como se fosse inovação de ponta, torna-se uma metáfora tragicômica sobre pertencimento. O que resta a esses homens senão inventar um novo sentido para suas vidas — mesmo que através de uma farsa? O filme, no entanto, não se posiciona acima deles. Ele não ri deles, mas com eles — e esse gesto é, em si, profundamente humano. A mise-en-scène acompanha esse tom: há suavidade nas cores, nostalgia nos enquadramentos e, sobretudo, uma recusa em espetacularizar o drama. O humor não surge como alívio, mas como espinha dorsal da narrativa — um modo de enxergar o mundo quando tudo ao redor parece ruir. É quase um afeto em forma de risada. Em tempos em que o cinema histórico tende à reverência ou à frieza, O Grande Golpe do Leste se insinua como um desvio encantador. Há, por fim, algo de muito atual nesse olhar. Em um mundo que ainda insiste em construir muros, literais ou simbólicos, o filme lembra que a resistência pode estar no riso, no improviso, no gesto pequeno que desafia a rigidez das estruturas. E que o cinema, quando não se furta à leveza, pode iluminar feridas antigas com uma luz inesperada — aquela que nasce do afeto.
Crítica – Eros | Crônicas do prazer silenciado por uma moral cega
Muito lindo o quanto Rachel Daisy está preocupada em transformar seus protagonistas em diretores, se distanciando como apenas uma observadora, como se sentasse ao lado do espectador, a fim de controlar na cênica construída a partir da ambiência dos motéis nossas emoções. Ela conta, através de histórias vivas de personagens reais, um pouco da sua sexualidade, da frustração que originou a ideia do longa, desconstruindo ideais preconceituosos e discriminantes em torno do ato sexual, de gênero e das fantasias como algo a ser considerado maligno. O grande monstro falso moralista do olhar “cristão” — que mais cria revolta e repressão do que a tal sociedade utópica, “perfeita” e moralista — segue cegamente escrituras que não dialogam com seus tempos, e muito menos com as regras estabelecidas a partir delas. Com visões turvas, deturpam mandamentos para impor falsas verdades sem qualquer resquício de arrependimento ou consciência sobre as prisões sociais e culturais que criam, fazendo a vida parecer apenas uma passagem repentina por um caminho já escrito, onde “pisar fora da linha” transforma você no maior vilão da humanidade. Os debates em torno de corpos desnudos discutem o olhar da sociedade sobre a sexualidade humana, os preceitos criados a partir de preconceitos que acabam por estigmatizar e mistificar algo tão comum — e, por que não, importante também — que define tão bem a raça humana quanto o desejo e o prazer. E não só o prazer sexual: o desejo pode ser material, lisérgico, metafísico, metabólico. Causa sensações. Assim como o prazer: o de ter, de conquistar, de realizar um sonho — ou apenas o prazer carnal da penetração, do toque, do chupar, do lamber, do ver, e do sentir. Seja momentâneo ou duradouro, o sexo é exponencial e derivativo, pode ser calculado, mas nunca deveria ter sido tratado como algo ruim ou maléfico. A escolha de Rachel em contar várias crônicas dessas pessoas em suas idas e intimidades — não só com seus respectivos parceiros sexuais, mas também com o próprio motel — quebra esse olhar marginal do espaço. Ela torna o motel quase inacessível aos menos afortunados, que renegam seus prazeres em prol dessa visão pobre do sexo, majoritariamente empregada no senso comum. Um segmento especialmente potente é o de um casal gay que, após o sexo, debate sobre o olhar de Deus e os mandamentos, e percebe que não há nenhuma escritura que cite motéis. Esse momento concretiza o diálogo com a precarização do ato sexual, seja pela falta de acesso, seja pela necessidade de consumir o desejo em qualquer instância: em pé, embaixo de uma ponte, em banheiros públicos — lugares que constroem essa imagem marginal de tudo o que foge à norma heterossexual. Outro trecho interessantíssimo traz um casal debatendo sobre etariedade no sexo e o desprezo por pessoas mais experientes, seja em idade ou vivência com o prazer carnal. A partir desse debate, é inevitável não pensar em como o autoconhecimento, o aprendizado, a experiência do novo — tudo aquilo que escapa da bolha — parece fora de alcance no mundo contemporâneo. São monstros e demônios criados e mortos a cada segundo com o maior intuito possível de podar a experiência do viver, do sentir, do olhar, de experimentar sabores e dores. Tudo é velado, tudo é errado, nada é certo. Quando tudo é pecado, nada é. Um dos momentos mais sensíveis do documentário é o segmento de um rapaz sozinho no motel. Ele debate e entende o porquê de estar ali só. Aceita sua solitude — não de forma depressiva ou depreciativa, mas como liberdade corpórea e psicológica. Rachel, além de colocar seus personagens como estudo social, cria a materialização do motel como contador de histórias. A arquitetura dos quartos abraça seus clientes em espaços criados com objetivos “certos” que, ao mesmo tempo, fluem para a humanidade desarmada da entrega carnal. Há confiança e interesse por trás de cada parede. E, como pano de fundo, os gemidos de terceiros ecoam como um lembrete de que ali existe um universo à parte, onde os desejos — os mais diversos — são o alicerce humanitário. O prazer da conversa. Da realização de uma fantasia. Do sair da rotina. Do andar nu sem amarras. De deixar o corpo ser livre por algumas horas. Isso é o que “Eros” documenta. Um mundo inteiro que resiste apesar do moralismo cego.
Tudum 2025 | Netflix revela novidades de Stranger Things, Wandinha, Round 6, One Piece e mais
A Netflix realizou, diretamente de São Paulo, mais uma edição do Tudum, seu evento global voltado para fãs, e trouxe uma série de novidades sobre algumas das suas produções mais aguardadas. O evento contou com trailers, teasers, pôsteres, datas de lançamento e anúncios de novas temporadas, filmes inéditos e continuações de grandes sucessos da plataforma. Entre os principais destaques, está a aguardada quinta e última temporada de Stranger Things. A série ganhou um trailer inédito e teve sua divisão de episódios confirmada. Serão dois volumes: o primeiro chega no dia 5 de junho de 2025, com 6 episódios, e o segundo em 26 de setembro de 2025, com 3 episódios, encerrando a história. O vídeo revelou cenas tensas, novos perigos e momentos que preparam o terreno para uma despedida épica do grupo de Hawkins. Outra despedida que vem por aí é a de Round 6. A série coreana fenômeno global chega à sua terceira e última temporada no dia 12 de dezembro de 2025. O trailer apresentado no Tudum trouxe as primeiras imagens dos novos jogos e desafios, além de antecipar que a trama seguirá intensa, focada na luta pela sobrevivência dos participantes. Para os fãs de Wandinha, o Tudum revelou um trailer estendido com mais de 6 minutos, que mergulha nas novas aventuras da personagem vivida por Jenna Ortega. A prévia mostra que a segunda temporada trará ainda mais mistérios, elementos sombrios e conflitos no colégio Nunca Mais, além da chegada de novos personagens e desafios para Wandinha. A nova temporada está prevista para estrear ainda em 2025, mas sem data confirmada. Já os fãs de One Piece, adaptação live-action do famoso mangá e anime, foram surpreendidos com o primeiro teaser da segunda temporada, que confirmou oficialmente a introdução de Tony Tony Chopper, um dos personagens mais icônicos e queridos da obra. A prévia mostra os primeiros vislumbres dos novos cenários e pistas do que vem por aí na jornada dos Chapéus de Palha. No segmento de filmes, a Netflix também fez grandes anúncios. Foi divulgado o primeiro trailer de Frankenstein, novo filme dirigido por Guillermo del Toro, que chega ao catálogo em 9 de janeiro de 2026. A produção promete uma releitura sombria, estilizada e moderna do clássico da literatura de Mary Shelley. Outro grande destaque foi Vivo ou Morto: Entre Facas e Segredos 3, que ganhou trailer e teaser inéditos no evento. O filme, novamente dirigido por Rian Johnson, terá o retorno de Daniel Craig como o detetive Benoit Blanc, prometendo mais uma investigação repleta de reviravoltas. A estreia ficou marcada para o dia 27 de novembro de 2025. A Netflix também surpreendeu o público ao anunciar Um Maluco no Golfe 2, sequência da comédia estrelada por Adam Sandler. O trailer apresentou os primeiros detalhes da nova história, prometendo manter o humor irreverente e absurdo que fez do primeiro filme um clássico cult, agora atualizado para uma nova geração. Além dos anúncios, o Tudum 2025 contou com uma apresentação especial de Lady Gaga, que subiu ao palco para cantar alguns de seus maiores sucessos. A cantora empolgou o público presente em São Paulo com performances de hits como “Bad Romance”, “Poker Face” e “Rain on Me”, além de interagir com os fãs e celebrar sua parceria com a Netflix, que inclui projetos futuros ainda mantidos em sigilo. O Tudum 2025 reforça mais uma vez a força das produções originais da Netflix, que continua apostando tanto na expansão de universos já conhecidos quanto na criação de novos conteúdos para seus assinantes ao redor do mundo.
O Norte Não É Estereótipo, Nem Cota de Trending Topic
Existe uma linha tênue entre rir de algo e rir de alguém. E, quando falamos do Norte do Brasil, essa linha nem existe — ela já foi ultrapassada faz tempo, sem nenhum constrangimento. O recente comentário do canal Diva Depressão sobre o Festival da Cunhã, evento idealizado pela ex-BBB Isabelle Nogueira, não é só um deslize ou uma piada fora de contexto. É mais um capítulo de um roteiro cansado que reforça, sistematicamente, o apagamento do Norte no imaginário coletivo brasileiro. E não se trata aqui de defender o festival de forma cega. Há sim críticas possíveis, principalmente no quesito de divulgação, que mesmo tendo chegado a grandes emissoras e veículos nacionais, parece nunca ser o suficiente. Nunca é. Porque, quando o evento é no Norte e para o Norte, a régua da validação é sempre mais alta, sempre mais exigente. O que lá no eixo Rio-São Paulo ganha aplauso pela proposta, aqui precisa se justificar três vezes mais para sequer ser levado a sério. É impossível ignorar o que foi construído ali. E não, isso não é — nem nunca foi — sobre transformar a nossa cultura em entretenimento descartável, ou sobre enfeitar o feed de quem veio de fora. A chamada “imersão amazônica”, que aconteceu nesses dois dias, não se resume a uma brincadeira turística. É, sobretudo, uma ferramenta. Uma estratégia muito bem pensada que se utiliza, sim, dos números e do alcance desses influenciadores e artistas, mas para atravessar fronteiras. Para que, pelos olhos de quem vem de fora e se permite experienciar esse bioma, essa cultura e esse povo, o Brasil inteiro — e quem sabe até além — veja, conheça e entenda quem somos. Que perceba que aqui não tem meme, não tem piada, não tem maloca nem palafita caricata: tem gente. Tem cultura. Tem potência. E tem uma festa que, muito além de música e dança, promove movimentos sociais, ambientais e culturais que, há muito, deveriam estar no centro das discussões. E ironicamente, o Festival da Cunhã fez exatamente aquilo que se cobra tanto do Norte: celebrou a nossa cultura, nossos artistas, nossa identidade. Foi um palco para a arte amazônica, para a nossa música, para as nossas tradições. E, mais do que isso, arrecadou quase 30 toneladas de alimentos para famílias vulneráveis no Amazonas. Mas, mesmo assim, virou meme. Virou piada fácil. Além disso, o festival promoveu o plantio de mais de 750 árvores nativas em áreas degradadas da Floresta Amazônica, em parceria com a startup Tree Earth. Cada árvore foi registrada por meio de aplicativo, garantindo monitoramento por celular e certificado blockchain, gerando um “token verde” que assegura transparência, rastreabilidade e impacto real. Certa vez, um amigo da Bahia me disse, sem rodeios, que quando pensa no Amazonas, não vem imagem nenhuma à cabeça. Nem de Manaus, nem dos interiores, nem de absolutamente nada. Isso é sintomático. E é sintomático porque, dentro do próprio Norte, somos pouco estimulados a conhecer nossa história, nossa cultura e os próprios territórios. Quando não somos levados a sério nem por quem nos governa — que insiste em importar modelos de cultura, de entretenimento e de desenvolvimento econômico que não dialogam com a nossa realidade —, fica fácil entender por que o Brasil inteiro acha que aqui só tem mato, maloca e palafita. Enquanto comentávamos sobre essa piada rala, um assunto muito mais grave avançava no Congresso Nacional: o projeto que estende os mesmos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus para o Distrito Federal e seu entorno. Isso não é só uma questão econômica. É sobre apagar, mais uma vez, as particularidades do Norte. A Zona Franca de Manaus nunca foi um privilégio. Ela é uma compensação a um território que vive desafios logísticos, ambientais e econômicos únicos no país. Ao replicar esse modelo para o DF, o governo não só esvazia a nossa economia como também reafirma que, mais uma vez, o Norte não importa. O que isso tem a ver com o comentário sobre o Festival da Cunhã? Tudo. Porque não somos levados a sério. Nem como sujeitos culturais, nem como sujeitos econômicos, nem como povo. O Norte, quando muito, serve para ser folclorizado, fetichizado ou viralizado — nunca para ser respeitado como potência. A gente não precisa estar nos trending topics para existir. Nossa cultura não é figurante no roteiro do Brasil. A nossa música, os nossos povos, os nossos artistas e os nossos territórios não são meme, nem caridade, nem cota. São potência. E quem insiste em não enxergar, quem prefere rir em vez de entender, não está apenas sendo ignorante — está sendo cúmplice de um projeto histórico de apagamento. Se tem algo que me revolta não é hate na internet, não é meme, não é número. É esse viralatismo institucionalizado que faz com que o Brasil só olhe pro Norte quando quer folclorizar, satirizar ou explorar. E, se o Norte não cabe no imaginário desse país, então talvez o problema nunca tenha sido a gente. O problema é quem se recusa a olhar.
Festival de Cannes 2025 | Filme iraniano leva Palma de Ouro; confira vencedores
A noite de premiação do Festival de Cannes 2025 consagrou o Brasil como um dos grandes destaques da edição. O longa O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, venceu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator, com uma performance aclamada de Wagner Moura. Além disso, a produção brasileira foi amplamente reconhecida pela crítica internacional, recebendo o Prêmio FIPRESCI e o Prix des Cinémas Art et Essai, reforçando sua força junto aos jurados e consolidando sua presença entre os filmes mais marcantes do festival. A Palma de Ouro foi para A Simple Accident, do cineasta iraniano Jafar Panahi, em uma premiação marcada por forte impacto político e social. Confira os vencedores: Competição Oficial : Palma de ouro – “A Simple Accident”, de Jafar Panahi; Melhor Direção: Kleber Mendonça Filho, por O Agente Secreto Melhor Ator: Wagner Moura, por O Agente Secreto Melhor Atriz: Yui Suzuki, por Renoir Grand prix – “Sentimental Value”, de Joachim Trier; Prêmio Especial do Júri – “Ressurreição”, de Bi Gan; Prêmio do Júri – Mascha Schilinski, por “Sound of Falling”; Sirât, de Olivier Laxe Melhor Roteiro: Young Mothers, dos irmãos Dardenne (Bélgica) Menção Especial: My Father’s Shadow, de Akinola Davies Jr. Curta-metragem Palma de Ouro: I’m Glad You’re Dead Now , de Tawfeek Barhom; Menção Especial, curta-metragem: Ali, de Adnan Al Rajeev; Melhor atriz – Nadia Melliti, por The Little Sister. Outros prêmios Também nesta edição do Festival de Cannes, o filme brasileiro ganhou o prêmio da Crítica. O anúncio foi publicado no Instagram da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Esse prêmio, no entanto, não faz parte da lista oficial – a categoria foi criada por críticos de forma paralela. “O Agente Secreto” também levou o prêmio o “Art et Essai”, dos exibidores independentes da França. Sobre a premiação O Cannes funciona da seguinte maneira: Un Certain Regard : Melhor Filme: The Mysterious Gaze of the Flamingo, de Diego Céspedes (Chile) Melhor Direção: Tarzan e Arab Nasser, por Once Upon a Time in Gaza Melhor Performance: Cléo Diara (I Only Rest in the Storm) e Frank Dillane (Urchin) Prêmios paralelos já divulgados: Prêmio FIPRESCI (crítica internacional): O Agente Secreto Prix des Cinémas Art et Essai: O Agente Secreto Câmera de Ouro (Melhor Estreia): The President’s Cake, de Hasan Hadi (Iraque) Melhor Curta-Metragem: I’m Glad You’re Dead Now, de Twafeek Baron (Reino Unido) Premiação Cinef (filmes estudantis): Primeiro lugar: First Summer, de Heo Gayoung (Coreia do Sul) Segundo lugar: 12 Momentos Antes da Cerimônia do Hastear da Bandeira, de Qu Zhizheng (China) Terceiro lugar (empate): Ginger Boy, de Miki Tanaka (Japão) e Winter in March, de Natalia Mirzoyan (Estônia) Veja lista dos 22 filmes que concorreram a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025: “The Mastermind”, da americana Kelly Reichardt – A história do roubo de obras de arte com a guerra do Vietnã como pano de fundo e o movimento feminista. “Sound of falling”, da alemã Mascha Schilinski – Um drama que reúne quatro mulheres de quatro gerações diferentes em uma propriedade rural. “Two prosecutors”, do ucraniano Sergei Loznitsa – Um filme ambientado na União Soviética dos anos 1930, durante os expurgos stalinistas. “Dossier 137”, do francês Dominik Moll – Um filme policial sobre uma inspetora que enfrenta as consequências de um protesto em que um jovem foi ferido por um tiro dos agentes. “Sirat”, do espanhol Oliver Laxe – Um road movie, protagonizado por Sergi López. “La petite dernière”, da francesa Hafzia Herzi – A atriz e diretora adapta livremente o romance homônimo de Fatima Daas, que narra a história da filha mais nova de uma família de migrantes argelinos, que pouco a pouco se emancipa de sua família e suas tradições. “Eddington”, do americano Ari Aster – Um filme sobre um xerife de uma pequena cidade do Novo México com grandes aspirações. O elenco tem Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone. “Renoir”, da japonesa Chie Hayakawa – Um drama sobre o amadurecimento, a resiliência, o poder de cura da imaginação e uma família traumatizada que lutando para se reconectar. “Nouvelle Vague”, do americano Richard Linklater – Um filme sobre as filmagens de “Acossado” (1960) de Jean-Luc Godard. “Die, My Love” de la británica Lynne Ramsay – Um thriller sobre uma jovem que acaba de ser mãe e cai em depressão. O elenco inclui Jennifer Lawrence e Robert Pattinson. “O Agente Secreto”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho – Um thriller político ambientado no final dos anos 1970, durante a ditadura militar brasileira, protagonizado por Wagner Moura. “O Esquema Fenício”, do americano Wes Anderson – Uma comédia de espionagem protagonizada por várias estrelas de Hollywood, como é habitual em suas produções, incluindo Benicio Del Toro, Tom Hanks, Bill Murray, Scarlett Johansson e Mia Threapleton, filha de Kate Winslet. “Les Aigles de la République”, do egípcio Tarik Saleh – Prestes a perder tudo, o ator mais famoso do Egito aceita interpretar o papel de presidente em um filme biográfico em sua homenagem, apesar do risco envolvido. “Alpha”, de Julia Ducournau – Quatro anos depois de conquistar o maior prêmio de Cannes com “Titane”, a diretora francesa apresenta sua nova obra com Golshifteh Farahani e Tahar Rahim, a história de uma menina que enfrenta a epidemia de aids nos anos 1980. “A Simple Accident”, de Jafar Panahi – O diretor iraniano, perseguido pelo regime dos aiatolás, não quis antecipar destalhes de seu novo filme. “Fuori”, do italiano Mario Martone – Um filme biográfico sobre a atriz e escritora italiana Goliarda Sapienza. “Romería”, da espanhola Carla Simón – A diretora, vencedora do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2022 por “Alcarràs”, narra a viagem familiar de uma jovem catalã à Galícia após perder os pais para a aids, o mesmo drama que Simón viveu quando era criança. “The History of Sound”, do sul-africano Oliver Hermanus – Durante a Primeira Guerra Mundial, dois jovens decidem registrar as vidas, vozes e a música de seus compatriotas americanos. Filme protagonizado por Paul Mescal e Josh O’Connor. “Sentimental Value”, do norueguês Joachim Trier – Trier repete a parceria com a atriz Renate Reinsve (“A Pior
‘O agente secreto’ será lançado nos Estados Unidos por distribuidora de ‘Anora’, vencedor do Oscar de melhor filme
Estrelado por Wagner Moura, o filme brasileira é, até o momento, um dos destaques da competição do Festival de Cannes, sendo apontado como um dos concorrentes à Palma de Ouro. Exibido no último domingo na Riviera Francesa, o longa conta ainda com as presenças de Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho e Hermila Guedes no elenco principal. O lançamento nos Estados Unidos deve acontecer no segundo semestre de olho na temporada de premiações de 2024. O filme de Mendonça Filho já vem sendo apontado como forte candidato a representar o Brasil na corrida pelo prêmio da Academia, tentando repetir o feito de “Ainda estou aqui”. “O último azul”, de Gabriel Mascaro, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, também é apontado como forte concorrente. No Brasil, o filme será distribuído pela Vitrine Filmes. Ainda não há previsão de lançamento.
Crítica | “Ritas” e o retrato afetivo de quem foi muitas ao ser uma só
Rita Lee foi muitas — muitas mulheres, muitas personas, muitas fases. E Ritas, o documentário de Oswaldo Santana e Karen Harley, não tenta reduzir essa multiplicidade a uma narrativa única. Nem pretende “explicar” quem ela foi. Em vez disso, escolhe um caminho mais afetivo, sensorial e, principalmente, livre. É um filme que, como a própria Rita, prefere cores, colagens, música e ironia a qualquer rigidez. E isso faz toda a diferença. Aqui, a montagem não é só técnica — é linguagem. Ao contrário de Mania de Você, lançado quase simultaneamente e muito mais preso ao formato convencional, Ritas encontra formas visuais e sonoras de dar corpo a essa figura tão energética, amorosa, afetiva e criativa. Ainda que em alguns momentos as sobreposições visuais soem exageradas e até cansativas, essa exuberância faz sentido: é o retrato de uma artista que nunca economizou cor ou intensidade. Há uma inteligência emocional profunda na escolha de deixar que Rita conte sua própria história. Mesmo nos seus últimos dias, sua narração é viva, cheia de humor e lucidez. Ela guia o espectador entre fases da carreira e da vida pessoal, costurando suas transformações com a leveza e a honestidade que sempre teve. Mas Ritas não se contenta em ser uma linha do tempo — é também uma colagem de referências, memórias, paixões. Rita com seus animais, com seus objetos, com seus silêncios e suas peculiaridades, com seu companheirismo com Roberto de Carvalho. Conhecer esses lados é se aproximar não só da artista, mas da mulher que construiu sua persona com tanta verdade que hoje é impossível dissociá-las. Minha relação com Rita Lee começou no seu retorno em 2012, com músicas como Reza e Amor e Sexo. Foi ali que comecei a escutá-la de fato. A partir disso, mergulhei em sua obra anterior e fui entendendo o quanto ela foi essencial para a música brasileira, para o rock’n’roll nacional, para a cultura do país. E isso só torna mais contundente o discurso de Ritas — não o de Mania de Você, que se perde no olhar de terceiros —, mas o de um filme que nos coloca cara a cara com a Rita real. A que ri, que conta suas histórias, que mostra suas dores e afetos com leveza. A artista e a humana, lado a lado, sem precisar de mediações. Rita atravessou épocas, com suas músicas, seus gestos e sua coragem. Passou por prisões injustas, perdas dolorosas, recaídas difíceis, e traduziu tudo isso em arte. Cada letra, cada fase, cada olhar dizia sobre ela e também sobre o Brasil. É disso que Ritas dá conta: de mostrar como Rita Lee é eterna porque foi profundamente humana. E porque sabia transformar essa humanidade em música, em invenção, em liberdade.


