Ao pressionar pelo enquadramento de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, Washington desloca o combate ao crime para o terreno da segurança internacional e amplia sua margem de ação sobre problemas internos da região. Não é apenas uma nova classificação Existe uma diferença importante entre combater o crime organizado e redefinir juridicamente a natureza desse combate. A tentativa do governo Donald Trump de enquadrar facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas precisa ser observada a partir dessa diferença. À primeira vista, a proposta pode parecer apenas mais um gesto de endurecimento contra o crime organizado. Mas a mudança vai além da nomenclatura. Quando grupos criminosos passam a ser classificados como terroristas, o problema deixa de estar restrito ao campo da segurança pública e passa a ser tratado dentro da lógica da segurança nacional e da geopolítica. Não é apenas uma troca de rótulo. É uma mudança de enquadramento que amplia o alcance político, jurídico e estratégico das decisões tomadas em Washington. Foi justamente por isso que o governo brasileiro rejeitou, em 2025, a pressão americana para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Na ocasião, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, afirmou que, embora essas facções sejam violentas e tenham grande poder de organização criminosa, elas não se enquadram na definição jurídica de terrorismo prevista na legislação brasileira. A recusa não significou complacência com o crime. Significou preservar a autonomia jurídica do país. Uma coisa é combater facções com as ferramentas da lei brasileira. Outra é importar para dentro do ordenamento nacional uma categoria política moldada pelos interesses estratégicos de outra potência. Quando a linguagem da polícia dá lugar à lógica da guerra Nos últimos meses, o discurso vindo de Washington tem se tornado cada vez mais duro. Stephen Miller, assessor de segurança interna da Casa Branca, afirmou que os cartéis latino-americanos só poderiam ser derrotados com poder militar. Esse tipo de declaração indica uma mudança importante de abordagem. O debate deixa de ser conduzido na esfera policial e judicial e passa a ser formulado na linguagem da guerra. Em vez de cooperação em inteligência, investigação e repressão financeira ao crime organizado, ganha espaço uma visão militarizada do problema, mais próxima da chamada guerra ao terror. Mas é justamente nesse ponto que o precedente venezuelano ajuda a entender o que realmente está em jogo. Em 2020, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou Nicolás Maduro e integrantes do alto escalão venezuelano de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e conspiração armada. Segundo Washington, o governo venezuelano operaria uma rede conhecida como “Cartel de los Soles”. A acusação representava uma inflexão importante: o problema deixava de ser tratado apenas como narcotráfico e passava a ser enquadrado dentro da lógica do terrorismo. Nos anos seguintes, Washington aprofundou essa narrativa. Ao associar narcotráfico, terrorismo e segurança nacional, o caso venezuelano passou a ser tratado dentro de uma lógica estratégica que ampliava as possibilidades de ação dos Estados Unidos. Esse novo enquadramento ajudou a justificar o aumento das sanções, a intensificação da pressão internacional, a ampliação da recompensa pela captura de Maduro e, posteriormente, sua captura para julgamento em território americano. É justamente aí que o método se torna evidente: primeiro redefine-se juridicamente a ameaça. Depois ampliam-se as “opções”. É por isso que a tentativa de enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas precisa ser observada com cautela. O debate não é sobre a necessidade de combater essas facções. Isso é evidente. O ponto central é a moldura dentro da qual esse combate será travado. Quando o conceito de terrorismo passa a ser utilizado como instrumento político, ele deixa de ser apenas uma categoria penal e passa a funcionar como ferramenta de influência. O método não é novo: redefine-se o inimigo, internacionaliza-se a ameaça e ampliam-se as opções de intervenção. Na América Latina, a história mostra que esse tipo de movimento raramente termina apenas em cooperação.
Critica: Kiss All the Time, Disco Occasionally – Harry Styles
Em novo álbum, Harry Styles descobre que crescer também significa desacelerarNovo disco transforma vulnerabilidade e introspecção no eixo central de uma sonoridade que se aproxima do indie pop O novo álbum de Harry Styles, Kiss All the Time, Disco Occasionally, chega cercado por expectativas que, curiosamente, dizem muito mais sobre o momento do próprio artista do que sobre uma tentativa de reinventar a música pop. Depois de consolidar uma identidade estética muito característica de si próprio em Fine Line e refinar essa mesma linguagem em Harry’s House, Styles parece agora menos interessado em estabelecer uma fórmula e mais disposto a testar pequenas rupturas que não são necessariamente sonoras, mas emocionais. De primeira, o disco pode soar discreto. Não há a grandiosidade pop imediata de “As It Was”, nem a catarse romântica de um coração partido que marcou o Fine Line. Em vez disso, o álbum aposta em um terreno mais atmosférico, mais contemplativo, que flerta com o indie pop contemporâneo sem se afastar do DNA pop que sempre sustentou a carreira de Harry. Essa mudança de sonoridade, embora sutil, aparece em várias camadas da produção do disco. Algumas faixas trazem linhas de guitarra e texturas psicodélicas que lembram o universo de Tame Impala e as produções de Kevin Parker. Em alguns momentos, especialmente na forma como sintetizadores e reverbs criam profundidade nas músicas, a sensação é quase a mesma de ouvir uma faixa que poderia ter saído das mãos de Parker. Essa aproximação com o indie psicodélico funciona como uma espécie de pista estética: Harry parece interessado em expandir sua paleta sonora sem romper com o pop. Talvez por isso parte da crítica tenha reagido com certa frieza. O álbum recebeu avaliações negativas em veículos tradicionais de crítica musical, como a Pitchfork, que sugeriu que o disco sugere que Harry teme mudar de fórmula, com um dance-pop contido e pouco memorável. Que falta exposição pessoal. No entanto, essa leitura talvez ignore justamente o movimento mais interessante do projeto: Kiss All the Time, Disco Occasionally não tenta reinventar a música ou quebrar barreiras com uma “mudança de fórmula”. E isso parece ser uma escolha calculada. Se existe um gesto ousado aqui, ele não está em criar um novo gênero ou em apresentar uma estética revolucionária. O gesto está no deslocamento. Harry Styles, um dos nomes mais bem-sucedidos do pop da última década, decide se afastar ligeiramente da zona de conforto que construiu, com a mistura de pop retrô, soft rock e soul setentista, para experimentar um registro mais introspectivo e despreocupado, mais indie e sem hits imediatos. Para um artista que construiu grande parte da carreira equilibrando carisma pop e controle narrativo sobre sua própria imagem, esse movimento pode parecer pequeno à primeira vista. Mas dentro da lógica da carreira de Harry, ele ganha outra dimensão: é um passo em direção à vulnerabilidade. Esse tempo de pausa foi muito importante para isso. E essa vulnerabilidade passa pelo disco inteiro. Nas letras, há menos respostas e mais perguntas. O romance continua sendo um eixo central, como sempre foi na discografia de Harry, mas agora ele aparece cercado de reflexões sobre tempo, medo, escolhas e amadurecimento. É como se Harry estivesse olhando para trás e para frente ao mesmo tempo: revisitando experiências afetivas enquanto tenta entender o que ainda pode vir, e ainda o que ele planeja para o futuro. E essa sensação de balanço existencial casa com o momento pessoal do artista. Nos últimos anos, a turnê mundial Love On Tour marcou um período de enorme exposição e sucesso para Styles. Foram quase três anos de apresentações sem parar, com estádios lotados e uma presença constante nos holofotes. O fim dessa etapa abriu espaço para um tipo de reflexão menos performática e mais introspectiva. Em entrevistas recentes, Harry tem falado com frequência sobre a ideia de finalmente “estar vivendo”. Durante muito tempo, segundo ele próprio, muitas decisões eram guiadas pelo medo de errar, de perder controle sobre a própria narrativa, de dar passos que parecessem arriscados demais para uma carreira já consolidada. E esse medo, ao que tudo indica, agora começou a se dissipar. Há também um aspecto emocional difícil de ignorar nesse processo. A morte de Liam Payne, ex-colega de banda de Harry no One Direction, e o encerramento de um ciclo profissional tão intenso quanto o da Love On Tour parecem ter provocado uma mudança de perspectiva. E não necessariamente no sentido de transformar o disco em um registro explícito de luto ou término, mas no modo como o artista se permite olhar para o próprio percurso. De se permitir a sentir. Kiss All the Time, Disco Occasionally acaba se tornando, dessa forma, o álbum mais confessional da carreira de Harry Styles. E não porque revela grandes segredos, mas porque soa mais humano. Não tem personagens e há mais sentimentos em estado bruto. No sentido musical, isso se traduz em arranjos mais contidos, com faixas que valorizam o espaço entre os instrumentos e uma atmosfera que privilegia o clima emocional das músicas. Em vez de buscar o impacto imediato, muitas delas parecem interessadas em permanecer, em crescer aos poucos conforme o ouvinte volta a elas. É preciso mais de uma escuta para fazer sentido. Para alguns, isso pode sim soar como falta de ambição. Para outras pessoas, especialmente para quem acompanha a trajetória de Harry desde o início, o disco pode ser interpretado como um gesto de maturidade artística. Do jeito dele. E o verdadeiro experimento aqui não está na sonoridade, mas na postura que ele apostou desta vez. Harry Styles, que durante anos exerceu com perfeição o papel de popstar global, agora assume o seu lado mais frágil e aparece mais disposto em não ter todas as respostas, mas sim em viver, sentir e estar presente para o que importa de verdade. E, nesse universo altamente controlado e caótico do pop contemporâneo, para um artista que surgiu a partir da indústria e dos padrões de uma boyband, admitir essa fragilidade é, sim, um dos movimentos mais corajosos e
Critica: Pânico 7 – Um retorno às origens que prova que a franquia já não tem muito para onde ir
Panico 7 tenta voltar às raízes da franquia. Traz Sidney Prescott de volta ao centro da história, recupera a estrutura clássica da série e aposta no conforto da nostalgia. O problema é que, ao fazer isso, acaba revelando algo que a saga sempre conseguiu esconder muito bem: talvez Pânico tenha finalmente ficado sem ideias. A trama coloca Sidney novamente na mira de Ghostface, agora ao lado de sua filha adolescente, Tatum. A dinâmica entre mãe e filha até sugere um novo caminho para a franquia, mas o filme nunca aprofunda essa relação o suficiente para que ela realmente sustente a narrativa. Em vez disso, a história segue o manual já conhecido: ligação misteriosa, assassinatos espalhados pelo elenco jovem, suspeitos em série e a inevitável revelação final. Kevin Williamson, criador da franquia e agora diretor, parece consciente do peso da nostalgia. O filme constantemente faz referência ao passado da saga, revisitando personagens, nomes e situações clássicas. Só que essa estratégia funciona mais como lembrança do que já foi feito do que como construção de algo novo. Em vários momentos, a sensação é de estar assistindo a uma repetição ligeiramente atualizada do primeiro filme. Neve Campbell continua sendo o coração da franquia. Sua Sidney carrega uma presença mais madura, quase resignada, de alguém que já passou por esse pesadelo inúmeras vezes. Mas mesmo seu retorno não consegue esconder que o roteiro parece mais interessado em repetir fórmulas do que em reinventá-las. Os novos personagens também não ajudam muito. Muitos são pouco desenvolvidos e funcionam apenas como peças descartáveis dentro do jogo clássico da série: quem será o assassino por trás da máscara? O problema é que, desta vez, a pergunta parece menos interessante do que nunca. Há alguns momentos divertidos, um ou outro assassinato mais criativo e um início que lembra por que a franquia foi tão influente nos anos 90. Mas Panico 7 raramente encontra algo realmente novo para dizer sobre o gênero que ajudou a reinventar. No fim, o maior inimigo do filme talvez não seja Ghostface, mas o próprio passado da franquia. Quanto mais ele tenta homenageá-lo, mais nos faz lembrar de quando a série era realmente afiada.


