É curioso como a Amazônia no cinema sempre esteve associada a uma ideia de conquista — seja pela violência do progresso ou pela obsessão colonial. Iracema – Uma Transa Amazônica, lançado em 1974, completa 50 anos em 2025 e retorna ao circuito em uma remasterização que não poderia ser mais atual. A tragédia política que atravessa o Norte do país se comunica com o filme como se ele tivesse sido feito ontem. Quando assistimos ao clássico de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, o que aparece na tela não é um Brasil do passado, mas o Brasil cíclico, que parece nunca sair do mesmo lugar. Iracema não é um documento arqueológico: é um reflexo cruel de um sistema onde as engrenagens do capital seguem moendo corpos, rios e florestas em nome do desenvolvimento. É impossível não pensar nisso quando assistimos ao filme e acompanhamos a personagem Iracema — símbolo de uma floresta invadida, corpo colonizado — sendo triturada pela máquina econômica do asfalto, do agronegócio e da exploração sexual. A personagem atravessa o Brasil sob o olhar da câmera crua e quase documental, sendo objeto de desejo, abandono e violência. Enquanto o homem branco tenta “desbravar” e se aproveitar, o filme expõe o esvaziamento moral e político desse projeto de nação, colocando o espectador diante de uma Amazônia que não é floresta exótica, mas território de saque. E se Iracema é a imagem direta do estupro da floresta, Fitzcarraldo, de Werner Herzog, lançado em 1982, é a versão delirante da mesma história. A diferença é a roupagem épica. A obsessão do personagem em construir uma ópera em meio ao nada é ao mesmo tempo fascinante e grotesca. Herzog cria o cinema sobre si mesmo: um cineasta obcecado filmando um personagem obcecado, em um processo que explora tanto a paisagem quanto as pessoas, muitas vezes às custas da dignidade dos povos que habitam aquele espaço. O paralelo não é apenas narrativo: é material. Houve invasões, acidentes, doenças, abandono. Herzog se tornou Fitzcarraldo. A “ópera na selva” virou sinônimo de vaidade europeia mascarada de cultura. Agora, em 2025, não estamos mais no campo da ficção. Seis dos oito deputados federais do Amazonas votaram a favor do Projeto de Lei 2.159/2021 — o chamado “PL da Devastação”. O projeto flexibiliza o licenciamento ambiental, institui mecanismos de autolicenciamento por autodeclaração, fragiliza órgãos como Ibama e ICMBio, ameaça territórios indígenas e quilombolas ainda em processo de demarcação e cria atalhos para grandes empreendimentos passarem por cima da floresta. O que Iracema denunciava em 1974, e Fitzcarraldo encenava em 1982, agora é institucionalizado no Congresso Nacional. A violência deixa de ser simbólica, deixa de ser fábula ou denúncia cinematográfica: ela é votada, aprovada, legalizada. A discussão em torno da PL 2.159 expõe não só o desmonte institucional das políticas ambientais, mas também o esvaziamento dos próprios debates públicos sobre a Amazônia. O velho argumento do “progresso” volta reciclado, inclusive com manobras discursivas que tentam deslegitimar qualquer crítica à flexibilização do licenciamento ambiental. É comum ver, por exemplo, a retórica de que quem é contra o projeto de lei automaticamente seria contra obras como a BR-319 — uma simplificação grosseira que ignora a necessidade de fiscalização adequada e o debate técnico real sobre impactos socioambientais. A falsa equivalência vira ferramenta retórica para empurrar goela abaixo projetos que favorecem poucos e prejudicam muitos. Quando assistimos a Iracema remasterizado, não estamos assistindo a um filme velho, mas a uma profecia recorrente. É uma tragédia cíclica, onde a Amazônia sempre é a primeira a sangrar. A fala final do caminhoneiro, dizendo que “isso tudo aqui vai ser progresso”, ecoa com a mesma hipocrisia dos discursos contemporâneos em Brasília. O empresário que enxerga terra como mercadoria, o político que vê floresta como empecilho, o empresário que lava dinheiro na extração ilegal — todos são os filhos bastardos daquela transa amazônica. E há também o vazio. O vazio do cinema que registrou tudo isso por décadas e pouco foi ouvido. O vazio do Legislativo que passa a boiada enquanto a população se distrai com o entretenimento vazio. O vazio da democracia representativa que permite que quem deveria proteger o bem comum legisle em prol da destruição. Quando Iracema retorna às telas em 2025, o que vemos não é um filme antigo, mas um filme que nunca deixou de existir. É a lembrança incômoda de que o tempo no Brasil é um looping de exploração. E talvez por isso Herzog, em toda sua obsessão, tenha tido razão em chamar Fitzcarraldo de “conquistador do inútil”. A diferença é que, para nós, brasileiros, essa inutilidade custa vidas, rios, árvores e histórias. O cinema segue como testemunha. A questão é: até quando vamos apenas assistir?