Não há muito espaço para julgamentos definitivos em Stella: Vítima e Culpada. O filme assinado por Kilian Riedhof se desenha em torno de uma ausência — a de respostas fáceis — e aposta numa construção que desafia, incomoda e tensiona o espectador o tempo inteiro, especialmente pela maneira como Paula Beer encarna o papel-título. É a partir dela, e somente dela, que conseguimos transitar por esse labirinto emocional em que identidade e sobrevivência colidem com o peso histórico de uma culpa nacional. A trajetória de Stella Goldschlag, jovem judia que passa a colaborar com a Gestapo em plena Segunda Guerra Mundial, é uma ferida aberta da história alemã. Mas o filme não se interessa em simplesmente reconstitui-la como crônica histórica, e sim como ruína interna. Não há heroísmo, nem vilania pura. Há gestos. Há escolhas. Há um desejo de sobrevivência — que, na interpretação de Beer, nunca vem isento de inquietação. É nesse espaço entre o trauma e a escolha que o filme pulsa. Paula Beer, como já havia feito em Undine e Afire, transforma o íntimo de sua personagem em campo de batalha. A atriz parece se movimentar sempre entre o controle e o desmoronamento, como se Stella carregasse dentro de si uma linha tênue entre a lucidez e o colapso. É uma atuação silenciosa, cheia de microgestos, que grita através dos olhos — e que se sustenta mesmo quando o filme parece hesitar entre o que mostrar e o que deixar em sombra. Nesse sentido, é inevitável pensar no trabalho de Sandra Hüller em Anatomia de uma Queda, e mais recentemente, O Grande Golpe do Leste, onde o peso da performance se torna central para a construção do filme. Beer e Hüller têm em comum esse poder rarefeito de dilatar o tempo em cena. Visualmente sóbrio, o filme aposta num contraste constante entre o desejo e a culpa, entre o passado e a lembrança moldada. A encenação reforça essa ambiguidade ao trazer uma estrutura quase teatral de reencenação e depoimento — como se a verdade estivesse em disputa, e o tempo não fosse um aliado confiável. Essa estratégia aproxima o longa do território do tribunal da memória, mais do que de um drama convencional. A grande provocação que Stella: Vítima e Culpada nos oferece é justamente essa: e se o julgamento não for possível? E se todo esse percurso só nos restar como espelho de nós mesmos, de nossos limites diante da dor do outro, e da brutalidade com que o medo pode deformar qualquer convicção? A força do filme está menos na sua resolução e mais no que ela desencadeia. Stella não é desculpada. Também não é absolvida. O que resta, no fim, é a perturbação. Uma inquietude que segue com o espectador — e que talvez seja a única resposta possível.


